Rui, Hope e os cães-guia

Rui Andrade é sargento da Força Aérea e corre com um cão na cabeça. Duas características que não encaixam, de todo, no traço de personalidade que ele próprio insiste em realçar. “Sou uma pessoa assim meio para o tímido…” Soubemos de Rui por cruzá-lo vezes sem conta nas provas que por aí se multiplicam e pedimos-lhe uma entrevista. E ele respondeu conduzindo-nos a Mortágua, à Escola de Cães-Guia que, garante, é tudo o que o move. E apresentou-nos a Hope, cão de peluche que lhe adorna o boné e lhe disfarça a meia timidez, ancorada em óculos escuros mesmo quando chove. “Assim disfarçado, ninguém me conhece”.

É isso que define Rui: quando corre, não é ele que corre, é a missão que assumiu como sua, sensibilizar o mundo para o trabalho dos cães que são a luz de quem não vê, para o trabalho de todos quantos dedicam a vida a fazer destes cães trabalhadores dedicados e eficazes.

Rui apaixonou-se pela missão a tal ponto que conseguiu convencer a escola a deixá-lo ser família de acolhimento de uma cadela bebé, apesar de viver fora dos limites de trabalho da escola. Argumentou com a família que tem em Mortágua e venceu. Criou a Tiara e entregou-a, em lágrimas de satisfação, a um cego de Celorico da Beira.

Porventura inspirado no bruaá que se gera sempre em volta dos corredores mais artilhados, resolveu pegar num velho brinquedo de Tiara que ficara por casa e atrelá-la a um arnês. Primeiro em plástico, depois melhorado para alumínio. Pesa? “É uma tarefa que não pesa”. Atrasa-lhe os tempos? “Deixei de competir. A minha preocupação é ficar à minha frente”. Resulta? “Toda a gente simpatiza, aproximam-se, fazem perguntas, apoiam”. Sente-se “bem recebido”, mesmo quando um ou outro lhe apontam o “urso”. “Os meus amigos brincam, dizem: o urso não era para o cão era mesmo para ti”. Não releva. A homenagem à Tiara está feita, a mensagem vai passando, até porque Rui tem-na escrita no equipamento e a Hope é, há ano e meio, parte obrigatória dele.

E o nome dela, Hope, “tem a ver precisamente com esta esperança que tenho de que amanhã não seja preciso eu andar com um chapéu na cabeça para as pessoas saberem o que é um cão-guia”. Consegue cumprir a missão? “Vocês estão aqui, não estão…” Estivemos e convenceu-nos de tal forma que nos dedicámos a contar a escola e deixámos a história de Rui para agora, meses depois…

Ivete Carneiro

1 comentário

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  • Ricardo Monteiro

    27.7.2015

    Tenho um orgulho enorme, em ser amigo, de uma das melhores pessoas no Mundo!!!
    És uma máquina, Rui!!!!