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A corrida em que o último está a par do primeiro

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Há três pontes, daquelas de jardim público, quase ogivadas, bucólicas e pacíficas. São um nadinha de relevo sobre o rio Vigues, que atravessa o Parque da Cidade Dr Eduardo Coelho, em Vale de Cambra. Pois bem, serão o maior inimigo de todos quantos ousarem enfrentar as 24 Horas Portugal, cuja segunda edição reservou o fim de semana de 19 e 20 de setembro.

O programa? 24 horas a correr num circuito de 2 km e uns pós, entre as 12 horas de sábado e as 12 de domingo. 24 horas a correr? Ora bem, se conseguirem… O JN Running esteve na primeira edição e pode garantir que há quem consiga. Andrés Vasquéz, o vencedor, chegou aos 193 km percorridos no vale do Rio Vigues. Sim, esteve em pista durante 24 horas. Tal como o segundo e o terceiro. Sim, é verdade, caminha-se muito, mas, quando não se dorme, até respirar custa.

Mas não, não é isso que propõem os organizadores das 24 Horas Portugal, os corredores Vítor Dias e João Paulo Meixedo (apoiados pelo Grupo Recreativo da retorta e pela autarquia de Vale de Cambra). Pretendem, essencialmente,  juntar apaixonados pela corrida num evento que é, antes de mais, um belo fim de semana no campo. E conseguiram de tal forma em 2014 que as inscrições já triplicaram este ano. E as 24 Horas Portugal podem muito bem entrar para o top 10 europeu destas aventuras (há 55 corridas de 24 horas  no velho continente, cerca de 200 em todo o mundo): se todos os inscritos nas 24 horas em solitário – e já são 71 – terminarem com pelo menos uma maratona nas pernas (e uma maratona em 24 horas, que diabo, é fácil de fazer), será das provas com mais finishers na Europa. No ano passado, terminaram 23 atletas solitários.

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E eram solitários porque, à margem, havia todos os outros. Este ano, estão já inscritas 280 pessoas para alinhar nas provas de três horas individuais ou por equipas de três, ou na prova de 24 horas por equipa (de dois e de quatro). A ideia é manter a “pista” sempre concorrida, para que não falte quem faça companhia aos heróis solitários. “É a única prova em que o primeiro e o último correm par a par”, diz João Paulo Meixedo.

E correr par a par será, este ano, poder ouvir o administrador do Banco Bic Rui Pedras contar as suas ultra-aventuras, como aquela em que esteve três horas a ajudar uma atleta portuguesa a recuperar numa prova internacional para ambos seguirem até á meta. Ou então poder perguntar a Analice, a ultramaratonista de 70 anos, quantas maratonas tem ela no currículo. Ou ainda pedir à vencedora do ano passado e vencedora feminina das 24 horas Luxemburgo, Carla André, que nos conte, em ritmo de trote, a sua fabulosa aventura na Maratona das Areias. Ou ainda ver João Oliveira fazer-nos sentir pequeninos com a força que lhe corre nas veias e que lhe valeu, já, o primeiro lugar na grega Spartathlon (245,3 km de percurso e 23h29m08s… menos de 24, portanto…). Há pelo menos seis inscritos com recordes pessoais acima dos 200km, está garantida a diversão. Ah, e correr par a par é, para quem corre em equipa ou nas três horas, a oportunidade de ultrapassar os maiores da corrida (e oh se sabe bem…).

O resto é uma tenda gigante com alimentação quente permanente e zona de convívio, é um relvado para plantar as tendas e poder escapar ao relógio para uma rápida soneca, é reencontrar os “ronhonhós”, Elsa e João e a sua filhota, é apoiar José Capela, Ricardo Bastos e Fernando Ferreira, os três atletas que vão correr por causas. E é correr aos soluços, o tempo e a distância que se quiser, só porque sim, porque aquilo, na verdade, é uma enorme reunião de amigos… Pena as pontes, que ao cabo de 20 voltas já são torres. Eiffel.

Ivete Carneiro

Fotos Tony Dias / Global Imagens

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