A conquista de David Quelhas

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“Chegamos a uma altura em que a parte psicológica conta muito”. David Quelhas, 24 anos, tem desde o passado fim de semana uma prova de três dígitos no currículo. Sim, é novo. Sim, principalmente para gerir essa “parte psicológica” que conta tanto. Sim, para conseguir o que conseguiu, depois de um ano de lesões e de apenas ano e meio de sapatilhas calçadas: foi terceiro no Eiger Ultra Trail, na Suíça, considerada um das mais difíceis provas na distância, 101 km. Não esperava, admitiu o jovem ao JN Running.

David, natural de Trancoso, origem a que não será alheia a paixão pela montanha e pela natureza que o move, fala dela, da natureza, como quem desenha. Correr o Eiger Ultra Trail é circunavegar Grindelwald, “à sombra do Eiger”, diz ele, que escolheu esta prova para se estrear nos 100 km “pelas paisagens”. Andou 12h27m nelas, mais 43 minutos do que o vencedor, Jenzer Urs. E consegue definir o marco dos 70km como aquele em que “a parte psicológica conta”. Afinal, nunca se tinha aventurado além dos 80 km, por muito que esses 80 km fossem os da primeira prova da sua curta vida de atleta. “Sim, eu sei que não é muito aconselhável”. Foi no Ultra Trail das Aldeias de Xisto e correu-lhe bem, ele que corria havia tão pouco. Mas sim, fraquejou, admite, até porque andou mais de metade da prova sozinho. E agradece à família que o acompanhou até á Suíça, porque foi nela que ele se concentrou nesses fraquejos. Nela e nos amigos que o aplaudiam à distância, desde a Coimbra onde gasta os dias a estudar Informática de Gestão. Porque sempre acreditou no esforço da preparação.

Pedro Silva é do Coimbra trail Running, grupo a que David também pertence: “O David vive em S. Martinho, onde não há montanhas nem serras (nem uma rampa digna desse nome). Não tem carro. Quando quer treinar desnível, acorda às 5h00 (hora a que os colegas de casa chegam da noite), pega na bicicleta e vai até à Lousã. Esconde-a num silvado, sobe a serra uma ou duas vezes e regressa a tempo de ir para as aulas”.

David fraquejou e ainda assim subiu ao pódio. “Temos sempre as nossas ambições, mas este foi um ano complicado, com lesões. Só voltei a treinar a sério a partir de maio. Não, não esperava”. Para trás ficava a conquista de 101 km com 6700 metros de desnível positivo, numa prova tida “como das mais bonitas do mundo” e parte do Ultra Trail World Tour. Não é difícil acreditar. Do alto dos seus 3970 metros de altitude, sobressai nos Alpes Berneses e integra o conjunto Jungfrau-Aletsch-Bietschhorn, Património da Humanidade pela Unesco.

I.C.

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