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UTDP: Não choramos porque desidrata

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Pode a beleza pôr lágrimas nos olhos. E pode a beleza ser a mão dada do amor na chegada ao paraíso. Pode, também, a beleza ser um sorriso no lugar de um esgar de dor. Pode. Pode, até, ser redentora, a beleza. E ser a recordação do inferno que, afinal, era apenas uma ideia errada. Mas não, não vamos chorar, porque chorar desidrata.

A beleza foi aquilo que propôs o Ultra Trail Douro e Paiva no passado domingo e nós tivemos a felicidade de vê-la redobrada. Porque corremos com a Ana Luísa a olhar a paixão do Pedro e da Teresa. Porque era a segunda vez que arrancávamos ali, naquela que é, até hoje, a mais bela linha de partida que vimos numa corrida de montanha. E porque, sendo a segunda, sabíamos ao que íamos. E isso é tão belo quanto não saber.

Ali é o Porto Antigo, na ponte sobre um Douro demasiado majestoso para caber numa descrição, inchado pelo Bestança cujo curso iríamos acompanhar até ele deixar de ser Bestança, no sentido contrário ao da vida de um rio. Ali é a beleza em estado puro, ainda não destruída pela dor e pela vontade de chorar, mas não, não pode ser, que chorar desidrata. Um cruzeiro desliza-nos sob os pés enquanto esperamos pela partida – fomos aos 35 km, este ano assumidamente com 35 km, que no ano passado foram vendidos como 30 e acabaram 35 e, oh, quão insuportáveis podem ser 5km quando não estão nos planos – a luz da manhã já deixa o Douro ser azul, é o que vale quando uma série de falhas atrasam o tiro de partida por 45 minutos. Não há organizações perfeitas e esta vai somando aprendizagem com as edições. Uma delas, pelos vistos, será desistir da mais bela partida de todas, porque isso implica transportar atletas de Cinfães, centro nevrálgico do UTDP, até ao Douro, lá tão em baixo, em autocarros nem sempre fiáveis. Quanto ao atraso, peanuts, sabíamos que ia estar um calor infernal e a diferença entre andar a correr às 13 ou às 15 horas é, convenhamos, nenhuma…

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Foto Miro Cerqueira

Calor. Era a pior lembrança de 2014. Ou seria o desnível? Íamos avisando, o UTDP são três episódios da barca do inferno. Um primeiro, técnico até ser impossível fazer mais duro, até aos 8km. No ano passado, só não foram a nossa meta porque um anjo da guarda nos agarrou a mão. Este ano podiam ter sido o nosso desvio de objetivo. Ponderámos bifurcar ali para a distância dos 18km, que diabo, ninguém sai incólume daquele carrossel que é o vale do Bestança e a memória dos dois estradões que se seguiriam brotava com brutalidade a cada sobe e desce do terreno. Aqui relevamos uma lição não aprendida do ano passado: os 18 km arrancam poucos minutos depois dos 35 e as provas cruzam-se no primeiro afunilamento do trilho, com a proverbial falta de cortesia dos velozes a tentar saltar por cima dos que, lentos mas determinados a ir muito mais longe, esperam a vez para alçar a perna sobre um qualquer obstáculo. Deixem-nos partir todos ao mesmo tempo (os da ultra de 64km já levavam com mais de duas horas no lombo, nunca nos poderíamos atrapalhar), os rápidos na frente de que tanto gostam, os lentos à medida deles, sem o risco de serem atropelados…

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Foto Pedro Vieira Pedrobeco

Não bifurcámos e voamos para o segundo episódio porque a Ana Luísa que alcançámos no abastecimento, fresca como alface, inventou que queria companhia, que estaria a odiar e precisava de ânimo.

O segundo episódio é o suave embalar da ruralidade de meia altitude, de caminhos empedrados há séculos, de gado a ser conduzido, de carregamentos de milho fresco a ocupar toda a largura do caminho, do silêncio das torres eólicas, lá em cima, tão no céu, vês Ana Luísa, é para lá delas que vamos, mas não vamos chorar, porque chorar desidrata. Não, até porque nós somos valentes, somos capazes de estar muitas horas em prova, não é Ana Luísa? Tanto que a nós se juntam, língua de fora do desânimo, aqueles que erradamente bifurcaram e resolveram voltar para trás e apanhar a carreira dos 35. Uns tantos, com mais uns quilómetros nas pernas. A dado passo, um aglomerado, Sónia sentada à sombra e dois cavalheiros com ar demasiado fresco a apoiá-la: são Pedro e Miguel, os rapazes do GOBS – Grupo Operacional de Busca e Salvamento que a organização pôs a vigiar a prova (ten points). Não, a sério, digam-nos que se soprarmos no apito das mochilas aparecem-nos estes moços jeitosos…

O Pedro e a Teresa são dos que trazem a língua de fora e dois ou três quilómetros a mais no pelo. O Pedro, para aquele que eventualmente não saiba, é o Ecthelion das corridas, o Darth Vader dos trilhos, esse que, gravado a tinta no gémeo já quase desapareceu debaixo de terra – o UTDP é isto, também, a certeza de que a roupa e as unhas não mais voltarão a ser da mesma cor. Por esta altura estaremos a meio da subida (mas o UTDP desce, em boa verdade?) de 22 km e 35 graus e mil palavrões e pouco vento e, olha, Ana Luísa, vira-te e sente o vento e olha bem, o Douro já não se vê, lá atrás da névoa do calor e do dorso do Montemuro, tão belo este Montemuro, e olha agora a mão dada do Pedro e da Teresa, na lentidão da canícula, ele a emoldurar-lhe a primeira grande distância nos trilhos, ele que corre habitualmente para lá dos três dígitos, ele paciente, com ela e connosco.

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Foto Ana Luísa Xavier

O terceiro episódio poderia ser na Terra do Demo se as Terras do Demo não tivessem já lugar no mapa umas dezenas de quilómetros a montante, no Douro de Aquilino. O inferno é o paraíso da partilha. O Carlos, outra língua à banda, diz que não, desmoralizado. Que não vale a pena, que o engano no caminho lhe pôs o desalento na alma. Mas a Ana Luísa, generala no seu labirinto de genuinidade, proíbe-o de pensar. Apita e grita que isto não é um passeio na praia, à frente ou levas com um bastão. (Não é para se dizer, mas a esta altura do campeonato já somos cinco mais os três vassouras e a garrafa de água gelada dos dois desgraçados que estiveram até agora a torrar no posto de controlo que inicia o planalto de S. Pedro… Planalto, ora bem, agora a recordação de 2014 é perfeita, planalto aqui é um cume atrás do outro e de mais outro e aquele penedo intransponível se tiveres menos de 1,70 e não dispuseres da mão de Darth Vader a aguentar todo o peso do teu corpo, may the force be with you ou estatelamo-nos redondinhos ali no granito a ferver). E de repente percebemos que assim não custa. À solidão das lágrimas do ano passado contrapõe-se a alegria da companhia deste ano, não foi preciso, desta vez, sentarmo-nos numa pedra a maldizer a vida e a clamar pelas mães menos sérias deste mundo, sapatilhas atiradas ao chão como uma toalha, entre dois cumes de violência. É violento, mas faz-se bem quando se carrega um sorriso, ao ponto de a visão da capela, no topo mais alto da serra, ser como a visão do éden, perfeita. Até porque esconde comida e nós por comida somos como, enfim… Cereja no topo do bolo, quando fingimos correr até ao tomate com pedras de sal surge-nos o decano destas vidas, Carlos Natividade Silva, a apontar-nos a objetiva. Uma palavra: luxo. Come, hidrata-te, anda, alimenta-te que já falta pouco. Sim mestre. Vamos? Sim generala.

Poderia daqui para diante ser um quarto episódio da barca do inferno, mas descobrimos que não foi inferno nenhum acumular 2500 metros positivos. Daqui para diante é um belíssimo percurso que repete, a descer, a ruralidade de meia altitude, a corrida lesta por riachos secos, por levadas sem musgo, por uma sucessão de abençoadas lagoas geladas, por aldeias paradas no tempo, por um derradeiro abastecimento, por uma última e íngreme subida que, afinal, já não nos faz hiperventilar, por um último carrossel no bosque sobranceiro a Cinfães e pela apoteose de uma chegada que coroa uma descida vertiginosa, assinalada em força pelo apito da Ana Luísa. Foram 35km de uma dureza quase sem paralelo em distâncias semelhantes em Portugal, 35 km que muitos não ousaram cumprir e trocaram por 18 e metade do desnível. E falamos destes porque nem nos atrevemos a pensar nos que se mandaram para os 64 km. Foram muitas horas calcorreadas sem resmungar, nada de especial, porque nós somos valentes e aguentamos muitas horas em prova e sem chorar, porque chorar desidrata, certo, Ana Luísa? Não sabemos se sabes, mas devias ser obrigatória em todas as corridas…

Ivete Carneiro

(Foto de capa: Miro Cerqueira)

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4 comentários

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  • Vitor Frango

    16.7.2015

    Brilhante relato, não o escrevi mas senti o na pele. Parabéns!!!

  • Paulo Moreira

    16.7.2015

    Muitos Parabéns relato “Santo”

  • José Sousa

    15.7.2015

    Parabéns por tudo o que descreveste e alcançaste neste evento

  • José Sousa

    15.7.2015

    Muito bom