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Na Freita, um morto matou um vivo

Rui Pinho foi dos que correu a Serra da Freita antes de todos os outros. Acompanhou a Confraria Trotamontes no desenho dos trilhos, dias a fio, fitas em punho, ar puro na alma. E correu-a a seguir. Arrancou para os 100km, com o prazer de revistar, sem o peso do rolo de fitas, alturas e funduras que bem conhece. Terminou cedo, aos 70 km, com a alegria de quem vive os passos que dá. E traz-nos as histórias que por lá se escondem. Como a do morto que matou o vivo. Verdade verdadinha. Como diz o nosso atleta-repórter, com a candura da criança que acorda dentro de todos nós numa corrida como a Ultra Trail da Serra da Freita, “um gajo não acaba, mas fica todo contente”.

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Foto Prozis

Conhecem o José Moutinho? Conhecem a Serra da Freita?

Não há ninguém que a conheça melhor que ele, nem mesmo os de lá. Há dias, em conversa com uns habitantes de Cabreiros, aldeia onde se separavam as provas dos 65 e dos 100 km, confirmei o que sempre ouço da boca dos habitantes da Freita: Não vão a aldeias que distam desnível das suas. Sim, desnível. Até vão a Candal, 2 km ali ao lado, ou a Tebilhão, outros 2. Agora a Covelo de Paivô (6 km) ou Rio de Frades (3 ou 4, pelo Trilho do Carteiro), que ficam lá no fundo, nem pensar. Só de carro. E todos sabemos que é caminho longo ir de carro.

A corrida por trilhos em Portugal tem um antes e um depois de José Moutinho. Não há volta a dar. Seja em montanha, onde fez escola, ou nos chamados percursos urbanos, onde há uns anos teimou em mostrar ser possível treinar desnível sem sair da Maia, há um antes e depois dele. A paixão que tem pela montanha e pela Freita em particular devia ser mais aproveitada pelas autoridades, que tanto planeiam para revitalizar o turismo e não aproveitam o que de melhor têm. Com a equipa que formou depois de ter aliado a sua paixão com a razão do casal Madureira (este é o caso que inverte a máxima, já que aqui, por trás de uma grande mulher, Flor, está um grande homem, José Carlos), elevou esta prova a um patamar dificilmente igualável. Há quem faça marcações em PR’s, há quem marque provas em estradões, e há quem as marque em mato. Há bons e maus abastecimentos, bons ou maus banhos, boas lembranças e brindes ou mesmo prémios.

A Confraria Trotamontes, na Ultra da Serra da Freita conta-nos histórias. Há em cada trilho sangue, suor e lágrimas derramados por gente que lutou até à exaustão, às mãos de quem queria o que a pedra escondia para aumentar poder bélico. Há rios cobertos de pedra onde a água corre límpida e cristalina como em nenhum outro lugar. Não há canos de companhias de água – há levadas. Não há carros a passar, nem gente para observar – há cabras que passeiam e vacas que repousam nas sombras do pasto.

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É por isto que a Freita é apaixonante, cativante, única e selvagem nas suas encostas mais a Oeste; são poucos os que se atrevem por ali. Há um ou dois anos, depois de uma corrida de Covelo de Paivô a Drave e Gourim, ao regressarmos, eu e o Mestre Carlos Natividade ouvimos a expressão de espanto de uma moradora com apenas 2 dentes à vista: “Hoji?!? Já lá não vou há mais de 30 anos. Os mortos de lá vinham para aqui, às costas.” Foi neste Trilho, a que o Moutinho não deu nome, que um morto matou um vivo. Segundo reza a lenda, ao transportarem um cadáver de Drave para Covelo de Paivô, um dos carregadores morreu ao ser atingido pelo caixão. E ficou a lenda. E o lugar. E os trilhos, belíssimos, difíceis, procurados pelos amantes das longas caminhadas e descoberta da natureza. E outros trilhos vão nascendo, ou melhor, ressuscitando.

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Fotos Catarina Ricardo

O Moutinho e sua equipa, e muitos que gostam daquilo, de andar no meio de história de gentes, sem gentes para contar estórias, buscam, procuram, limpam mato, consultam mapas, e reactivam caminhos outrora palmilhados por mineiros ocasionais, entregues à arte por uma guerra que ali uniu inimigos, e agora trilhos de faquir, já que as pedras partidas para procurar volfrâmio se transformaram em eternas lâminas prontas a destruir o melhor calçado de “montanha”. De mineiros, os atletas, ou aspirantes a tal, apenas levam o cansaço, as caras desgastadas pelo sol, o corpo dobrado pelas agressivas encostas, a mente que pergunta “porquê”. Porquê? Porque há histórias que se vivem sem ouvir estórias. Há vidas que se sentem em cada buraco escavado numa rocha. Há aldeias belas no fundo das encostas, há pastoras que se lavam no rio e nos aconselham a fazer o mesmo. E fazemos. Há um grito no horizonte, uma voz que chama. E há gente que nos faz erguer em cada um dos abastecimentos. Há gente que conhece esta história de ir a serras onde se contam estórias em busca de um feito que é mais interior que o físico cá fora nos faz mostrar. Há físicos que aguentam, outros que soçobram.

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Fotos Catarina Ricardo

Mas as histórias todos têm uma para contar. E fez-se de história de caminhos a edição de elite do UTSF. O caminho, comum a todas as provas, até ao planalto. Os trilhos ondulados a pentear toda a beleza matinal do alto da Serra. A chegada a Gestoso e a pedra. Tebilhão, Cabreiros e a descida do Trilho que o carteiro (que era lá da terra, Cabreiros) fazia para levar as novidades a Rio de Frades. Rio de Frades que tem uma única casa feia e se destaca das outras, belíssimas, em cascata e em pedra. Um túnel de acesso às minas. Um Rio, o Paivô, que nos leva a Covelo que lhe ficou com o nome, do rio, e ao forno. O calor insuportável, amenizado por quem desenhou a prova – Se há que subir, é quase sempre junto a cursos de água. Chegados ao alto do Portal do Inferno depois de cruzarmos a bela Covas do Monte, um paraíso de braços amigos e mais um inferno para subirmos aos céus. Só depois Drave. E a pastora. Tão linda, vista de cima, a Drave, penteada sobre a encosta. E mais reconfortante rio. Sair de um rio por uma parede verde que leva a três pinheiros. E o tempo limite que aperta. E as forças que já não sobram. Mas ali não há volta a dar, “ninguém nos vem buscar”. Póvoa das Leiras, aos 60 km (antes 40), dentro do tempo limite. As forças é que já iam para além. E o estômago expulsa o que há para expulsar: água. Come-se a melhor aletria do mundo, mas nem isso o estômago aceita. Sobe-se a “Besta” – que tem mais de belo do que de besta- “levado” pela vontade e por dois vassouras (Mário e Zé) com quem partilhei trabalho de campo, de limpeza e marcação de trilhos, e que não pararam de trabalhar; que fantástica gente esta desta bela organização. Planalto. Duas laranjas. Nem delas o estômago gostou. Só me restou vassourar também e recolher fitas até aos 70 km, e ir de carro de Manhouce à Lomba em busca da canja salgada que o acalmou. Não perdi nada da prova. As novidades estavam todas apreciadas, desfrutadas, desbravadas.

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Foto Confraria Trotamontes

Neste mesmo fim-de-semana, em Lavaredo, numa prova de 120 km com desnível semelhante (mais de 5.000), o primeiro classificado fez pouco mais de 12 horas. O vencedor da Freita fez 14. Também em Trail temos do melhor que se faz na Europa. E não havia zonas perigosas. Há montanha dura. Há progressão lenta pelo terreno agressivo, onde dar passos em frente implica sempre desnível e desconforto. Eu hei-de ficar sempre pela Freita, seja em prova, seja em treinos com amigos. É uma paixão que o Moutinho nos passa e que fica colada na alma.

Rui Pinho

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Foto Confraria Trotamontes

3 comentários

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  • António Cruz

    10.6.2016

    Excelente artigo! O episódio do morto que matou o vivo refere-se na verdade ao caminho entre as aldeias da Pena e Covas do Rio. Boa sorte a todos os atletas da UTSF 2016!

  • Mauro Gonçalves

    1.7.2015

    Ler estas crónicas do JN Running permite-nos saborear a serra de uma maneira completamente diferente… Por ali corri, mas por aqui aprendo pq passei por ali… As histórias, a vivência destas palavras amenizam o calão, o sofrimento da subidas da Ultra Trail Serra da Freita… Imperdível para todos os que além da natureza, apreciam um olhar antropológico dos trilhos. Maravilhoso…

  • Marcia Correia

    1.7.2015

    Parabéns pelo relato Rui Pinho! É mesmo de emocionar!
    Sou brasileira, vivo no Brasil, e me apaixonei pelo trail ainda mais depois de ter conhecido o José Moutinho e seus amigos (Hugo Silva, Mario Gouveia, Paulo Silva).
    Sem dúvida vocês devem se orgulhar do trail que fazem por aí. Há uma diferença imensa com a forma que se organiza e pratica por aqui. Faço parte de um grupo fantástico (PÉ NO MUNDO ADVENTURES) e vivemos em busca das boas provas, mas, apesar de termos lugares incríveis por aqui, a organização deixa a desejar em todos os sentidos.
    Vou torcer para encontrarmos um José Moutinho por aqui (ou para ele vir para cá! rs…).
    Parabéns! Pelo voluntariado, pela prova, pelo relato, pela paixão…