A Freita virou paixão

“Vão passar de noite? Ai… Lá em cima num conseguem passar, pelo monte abaixo…”. António, o ‘Alfaiate’, é o anfitrião do Muro, aldeia que descansa ali ao pé de Manhouce, debaixo das torres eólicas da Arada. A serra que de mão dada à Freita constrói o Maciço da Gralheira será hoje pasto, como todos os anos, para o bando de loucos que ousa inscrever-se nas maluqueiras desenhadas pelo mestre José Moutinho.

É o comandante da Confraria Trotamontes, é o “pai” do “trail” em Portugal, por ter somado às corridas de montanhas as dificuldades que são só dele e que já merecem o epíteto de “moutinhadas”. Encontrámo-lo a descer da Arada armado de uma roçadora, por um trilho tão velho que foi preciso abri-lo. Era terça-feira, faltavam quatro dias para a moutinhada mor, o Ultra Trail da Serra da Freita. Moutinho senta-se junto a um ribeiro que atravessa a calçada romana. Olhar azul raiado do cansaço e do calor, mãos sobre joelhos em sangue das agruras da vegetação, conta-nos o que é preparar esta que é uma das provas rainhas do trail nacional. Quanto mais não seja por ter sido inédita quando nasceu, há dez anos.

Preparar uma Freita é criar. Brilha, Moutinho, extenuado, entre suspiros, cabelo desgrenhado pelo suor. Criar é desenhar uma prova duríssima. “Andamos nisto há meses, desde o princípio do ano”, todos os fins de semana, a entrar na paisagem, a deixar um rasto de metro de largura, a descobrir que a lógica pode ser aos esses.

Morais chega atrás. É volunário como Asdrúbal, tesoura de poda a descansar à volta do pescoço, rolo de fita de plástico a baloiçar à cintura. Asdrúbal é voluntário como Mário, que é voluntário como António. Já Flor é organizadora. Está desempregada, os outros meteram férias para preparar o caminho para todos. E serão hoje mais de 700, distribuídos pelos percursos de 28, 65 e 100 quilómetros.

“Embora eu seja maluco, não vou esperar que todos sejam como eu…”, diz Moutinho. A dedicação dos amigos atribui-a, por isso, à paixão. Olha para Morais. “Vai correr”. Os 100 km. “E anda aqui a semana toda. Isto é só coisas incompreensíveis…”
Como o “amigo alfaiate” do Muro. “Quando nos topa, faz sinal”. E na verdade, lá está mal atacamos a curva inclinada para o centro da terra. “Isto” dos corredores “é bonito”. António gosta de irar-lhes a sede com um caneco de inox. “Qué qu’le dou? Ó, água aqui e vinho acolá. Inda bebem qualquer coisa…” Este ano passam de madrugada. “Ai…”

ivete carneiro

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