Saúde: Treinar muito cedo

Depois de avaliarmos a importância e os riscos do treino em jejum, debruçamo-nos hoje sobre o treino feito muito cedo, cada vez mais um hábito dos atletas de pelotão cuja vida pessoal e profissional deixa pouco espaço livre. Com a clareza a que já nos habituou, o professor catedrático de Fisiologia da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto José Soares diz-nos que pode não compensar treinar quase de madrugada se isso implicar sacrificar o descanso – que faz parte do treino, pela recuperação que permite.

A imparável “moda” da corrida, chamemos-lhe assim, está a transformar o corredor de pelotão num atleta de alta competição. Quem nunca cortou a meta de uma das dezenas de provas que marcam o mapa nacional, todos os fins de semana, regozijando-se por ter batido um recorde pessoal (RP, ou PBT, na terminologia inglesa, personal best time), ou lamentando-se porque fez pior do que na semana anterior? Poucos. A perceção da evolução muito rápida neste desporto faz-nos querer ir cada vez mais longe, cada vez mais depressa. Ora isso exige treino e o treino exige tempo e o tempo não estica.

“Temos que saber equilibrar aquilo que é a nossa atividade física, que é saudável e ajuda em inúmeros aspetos, com a nossa vida profissional e com a nossa vida pessoal”, alerta José Soares. A opção para conciliar agendas acaba por ser, muitas vezes, o treino madrugador. Com pelo menos uma consequência nociva: “a interrupção do sono, que para ser retemperador tem diferentes ciclos que devemos respeitar”.

“Com um dia muito atarefado, com um cansaço exagerado, muitas vezes não dormimos suficientemente bem e temos que acordar muito cedo para treinar e encurtamos o tempo de sono, que é decisivo para a recuperação”. A isso, o especialista soma a questão do pequeno-almoço. O que nos conduz ao treino em jejum. Não há uma contraindicação clara contra ele, diz José Soares, mas convém que obedeça a duas premissas: ser de baixa intensidade e não acontecer além das oito horas sem comer. Lembra, contudo, que o ideal é mesmo repor as energias para se treinar no máximo das capacidades. E, claro, “fruir o prazer da corrida”, que nos amadores deve ser uma atividade equilibrada.

O nutricionista Pedro Carvalho, da faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto, não olha estas corridas em jejum com maus olhos, mas apenas se servirem para “induzir adaptações ao treino”. “O jejum ou apenas a restrição de hidratos de carbono induz algum stresse, que aumenta o número de mitocôndrias e a vascularização a nível muscular e com isso aumenta o limiar anaeróbio e potencia a capacidade de endurance”. O especialista defende, por isso, que se trate de uma exceção ao longo dos dias e não de uma opção sistemática. E sugere até que se anteceda o treino em jejum da ingestão de cafeína. Mas vai dizendo que tudo isto faz sentido para atletas muito treinados.

Ivete Carneiro

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