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De que serve treinar em jejum?

O treino em jejum, usado há muito tempo por atletas de competição, começa a tornar-se tendência para quem pretende emagrecer, mas os especialistas alertam para os riscos desta prática sem controlo adequado.

O nutricionista Pedro Carvalho, docente na faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto e colaborador do JN Running, não olha estes treinos com maus olhos, mas apenas se com eles se pretender “induzir adaptações ao treino”. “O jejum ou apenas a restrição de hidratos de carbono induz algum stresse, que aumenta o número de mitocôndrias e vascularização a nível muscular para com isso se aumentar o limiar anaeróbio e potenciar a capacidade de endurance”. O especialista defende, por isso, que se trate de uma exceção ao longo dos dias e não uma opção sistemática. E sugere até que se antecipe o treino em jejum da ingestão de cafeína (ver vídeo). Este tipo de treinos “É uma estratégia que tem mais sentido ser usada em atletas do que em pessoas que não estão muito treinadas. Tem de existir o mínimo de capacidade cardiovascular. Quem quer queimar gordura, tem de se preocupar em treinar mais e comer melhor. Não é por treinar duas ou três vezes em jejum que vai recolher grandes benefícios”, disse o nutricionista, em declarações à Lusa.

Do seu lado, o personal trainer António Braz garante que “as evidências científicas demonstram que os riscos (de treinar em jejum) existem, uma vez que os processos metabólicos da gordura e a quantidade de açúcar disponível no sangue são extramente difíceis de controlar”. A ideia de quem procura os treinos cardiovasculares (corridas ou caminhadas) em jejum é aproveitar o período em que as reservas de açúcar estão baixas, para estimular a queima de gordura mais cedo no treino. “A questão é que o nosso cérebro consome preferencialmente açúcar e, na ausência deste, vamos obrigar o nosso corpo a produzir corpos cetónicos. Prolongando este quadro podemos causar cetose, elevando a acidez do sangue”, explica António Braz, lembrando que a acidose prolongada pode ter efeitos nefastos.

Henrique Jones, ex-médico da seleção portuguesa de futebol, considera que uma refeição ligeira uma hora antes do exercício “é fundamental para preencher as reservas energéticas que permitem alimentar os músculos”. O jejum, diz, pode provocar fadiga precoce e agravar micro-lesões musculares.

Já o especialista em medicina desportiva José Gomes Pereira diz que a prática tem décadas entre atletas de fundo, como maratonistas, para melhorar a performance, corroborando a opinião de Pedro Carvalho. “Se o exercício for estritamente aeróbio, de baixo impacto e com uma pessoa clinicamente saudável, não oferece qualquer risco realizá-lo. Porque uma pessoa metabolicamente saudável vai privilegiar, no exercício de baixo impacto, a utilização das gorduras em detrimento dos açúcares. Não provoca a hipoglicemia reativa ao esforço, que é o risco associado a quem faz exercício em jejum”, diz José Gomes Pereira, salientando o risco em caso de uma intensidade do esforço não rigorosamente monitorizada, podendo as pessoas ultrapassar o limiar da utilização dos açúcares durante o treino em jejum.

1 comentário

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  • Manuel Ribeiro Manel

    13.6.2015

    Há muitos anos que treino quase em jejum: água e um café. Tenho-me sentido bem. Noto, por vezes algum excesso de acidez.