Lucinda Sousa, a chefe da “equipa”

“Vamos equipa!” A voz de comando soa irresistível, até porque vem normalmente acompanhada de uma gargalhada e de palmas. Lucinda Sousa não sabe correr de outra forma. Sabe o prazer que é puxar pelos outros, porque a motivação que transmite à equipa – no fundo o incerto grupo de amigos que a acompanha sempre que calça as sapatilhas para treinar. Ou o Strauss, o pastor alemão que lhe acompanha os desvarios isolados nas serranias de Gens – é a que suga para si própria quando arranca na solidão da competição e de montanhas agrestes. A última vez que arrancou assim, sozinha, tinha pela frente 85 km. Caiu a escassos metros da partida, reergueu-se e avançou – 11:41.02 depois, cortava a meta do Campeonato do Mundo de Trail Running, em Annecy, França. Foi a melhor portuguesa.

Lucinda é campeã nacional de ultra trail, galardão que conquistou um ano depois de se meter a correr pelos montes. Mas é sobretudo campeã na luta da mulher-esposa-mãe-trabalhadora-atleta-campeã. Tem 44 anos, dois filhos a crescer e mais uns quantos que, não tendo o seu sangue, têm o seu coração. É professora de educação especial em S. Pedro da Cova, uma das freguesias mais difíceis de Gondomar, numa dedicação que admite absorver-lhe muita energia. “O despertador toca às 6.40 horas, faço o pequeno-almoço para os meus filhos, levo-lhes à cama e enquanto isso arranjo-me. Vou levá-los ao colégio e entro na minha escola às 8h20. Dou as aulas, treino muitas das vezes à hora de almoço, depois volto à escola e no final do dia é a rotina de levar os miúdos às atividades”. E cozinhar, ela que é uma deusa dos bons preparos – é de resto ela mesma que confeciona os alimentos que consome em prova. E são deliciosos…

“Eu corro há sensivelmente 20 anos”, ao ritmo de uma vez por semana, com umas corridas de estrada aqui e ali. Até que foi desafiada a experimentar o Trail de Santa Iria, em Branzelo, Melres, uma sucessão de paredes com vista para o Douro, em janeiro de 2013. Lucinda ia, claro, com “a equipa”. Em 25 km, deu-lhe duas horas de adianto. E o troféu de vencedora. Assim, do nada. Profissionalizou-se e, entretanto, correu a Maratona do Porto e chegou fresca como alface. Só podia ir mais longe. Ousou o Madeira Island Ultra Trail 2014, 100 km com noite, degraus, um relevo duro. Ganhou. E depois ganhou outros 100 em S. Mamede. Este ano, a atleta entretanto patrocinada pela La Sportiva
subiu ao pódio do escalão na Transgrancanária, onde foi sétima da geral. E está agora a descansar o joelho desfeito em França, para se recompor para “os Jogos Olímpicos”: o Ultra Trail do Monte Branco. “São 168 km…”

Ivete Carneiro

2 comentários

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  • Carlos Abilio Carvalho

    14.6.2015

    Parabéns! Uma mulher de armas, um exemplo de dedicação em todos os sentidos, como mulher, mãe, educadora. É uma mulher portuguesa. Felicidades.

  • Fernando Cruz

    13.6.2015

    Parabéns Lucinda.