Pedro Castro, a vontade de ferro

Nova Iorque era um sonho para Pedro Castro. Para trás tinham já ficado a ameaça dos três dígitos na balança, a sensação de que estava a morrer aos bocadinhos, os anos parado depois de quase ter disputado um título olímpico de natação e aquele dia de 2009 em que chegou a casa e disse à esposa que iria mudar de vida. Tinha ficado a meia maratona que lhe fez um clique, quando, aos 18km, esteve para baixar os braços e entregar-se à derrota. Aguentou e pensou, não, não paro, e hei de fazer uma maratona e será a de Nova Iorque, porque a Grande Maçã sempre foi uma paixão.

Pedro conseguiu inscrição para 2012, até treinou em “azar ou não” – “Hoje digo que não” -, o furacão Sandy suspendeu a prova. Havia mortos, destruição. Mas havia determinação de alguns. Nas redes sociais, Pedro percebeu que muitos dos corredores que se inscreverem através de projetos solidários iriam correr na mesma. O encontro estava marcado para o Central Park, porque quem corre por uma causa, corre de qualquer maneira. “Quando apareço e vejo cerca de 15 mil pessoas num movimento que se chamava Run Anyway, aquilo mexeu comigo de uma maneira muito intensa”. Deu duas voltas ao parque com as lágrimas a sulcarem-lhe o rosto, atrás de palavras de ordem inscritas em t-shirts. “Vim para Portugal com a semente. Tratei de convocar os amigos e comecei a tentar”.

Os amigos não acreditavam. Em boa verdade, nem ele. Propuseram-lhe fazer uma maratona que tinha prova em estafeta, em dezembro de 2012, porque eles não corriam 42km. Formaram equipas e correrem com Pedro. Nascia o projeto Run With Castro. “Fiz a minha primeira maratona sempre escudado por amigos”, são, com as duas filhas, o sangue dos projetos. Eles porque são cada vez mais em torno dele, elas porque foi para poder vê-las crescer até muito tarde que decidiu ser saudável.

O Run With Castro foi muito mais do que uma maratona. Pedro Quis correr para angariar cabazes de natal para 37 famílias com crianças em lares. Acabou ultrapassado pelos acontecimentos, até a Fundação O Século lhe pedir para parar, que já não encontrava fornecedores para tamanha solidariedade. “Consegui chegar a 220 famílias…” E recorda-se de estar à mesa com a família, na consoada, e de pensar que, naquela noite, tinha chegado a mais 220 famílias além da dele para dar-lhes um Natal um pouco melhor. “Alimentou-me a alma” a um ponto que não parou mais.

Os objetivos de competição, admite, existem, mas são um pormenor. “Todas as iniciativas sociais, normalmente concluídas antes das provas, fazem com que quando vou para a linha de partida já me sinto um vencedor, corra como corra a prova”.

O maior desafio em que se lançou foi um ironman – quatro quilómetros a nadar, 180 a pedalar e 42 a correr -, no ano em que fez 40 anos. Pedro recorda-o como o mais duro dos treinos, estendido por 30 semanas e mais 5000 quilômetros. Fixou uma marca: 11 horas. O treinador, Nuno Barradas, respondeu-lhe que era louco e que, se levasse a loucura em diante, escreveria um livro sobre a experiência. Pedro disse que sim e que escreveria com Nuno. Aí está a obra, cuja receita deverá ajudar a construir a casa da Acreditar no Porto.

Foi essa associação de apoio a crianças com cancro que lhe trouxe o mais belo troféu de corrida. Juntou o suficiente para lhes oferecer uma viagem à Eurodisney, desses desejos de criança que a solidariedade entende como fúteis. “Fui recebê-las ao aeroporto, vou recordar esse dia para sempre. Não é fácil ver chegar crianças com uma t-shirt a dizer ‘Obrigado Pedro Castro’, abraçarem-se às minhas pernas, algumas delas com lágrimas nos olhos. Muitas vêm de meios pobres…”

“O que teria acontecido se tivesse feito a maratona de Nova Iorque em 2012?”

Catarina Cruz e Ivete Carneiro

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