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Edda, Mauro e Arlindo na mais bela ultra

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(Foto Mauro Gonçalves)

“Eu sou rapariga para 70 anos. Não 17. Se-ten-ta”. Em inglês soará talvez melhor, ou não, que Edda é alemã e tem um sorriso assim, cândido, ao nível de uma rapariga para 17 anos. Edda foi a nossa festa. Porque Edda arrancou da Ribeirinha, num fundinho quase chão da ilha do Faial, nos Açores, com um uma entorse fresquinha. Coisa de nada. “Conhece o Francisco?”, pergunta ela, a coisa de cinco quilómetros de prova. Faltavam poucos para cortar a meta da ultra Azores Trail Run no passado sábado, uns 43. Quilómetros. O Francisco? Assim de repente não. Quem é? Diz ela, sorriso límpido, sem dores, que é o fisioterapeuta que no dia anterior lhe pôs o tornozelo a jeito da corrida, porque desistir não é palavra com que Edda lide assim do pé para a mão. Não, não cruzámos Francisco.

Mauro, o gigante vassoura das maiores provas de Portugal, tira o telemóvel da algibeira e liga para a médica de serviço. Tínhamos acabado de fechar o cortejo no Farol da Ribeirinha, um hino ao terramoto que varreu o triângulo central do Arquipélago em 1998, um esqueleto de resistência, desfeito mas gloriosamente hirto, a olhar da proa do Faial para a popa de S. Jorge e para a majestade do topo de Portugal. É proa, a nosso ver, porque apetece. Poderia ser popa, se o advento da juventude for a proa, numa ilha que viu nascer um cabeço milhares de anos depois de existir, esse mesmo cabeço que cola com a meta dos 48 km. Para nós não, porque é sabido que, para os lentos, uma corrida faz-se de trás para a frente, a glória, a felicidade, a frescura, a força, está tudo ali na proa, até meio. O resto é o inferno. Mas isso é para os lentos.

Edda foge-nos, ainda assim. Subimos do mar ao farol, do farol ao cabeço (e são de escadas os trilhos faialenses) e do cabeço descemos quase ao mar, assim sem jeito, só para mostrar a quem fica que somos fortes. Edda foge-nos. Mais escadas, até aos dez quilómetros e ao primeiro abastecimento, onde não está Francisco. Está Carlos. Edda, afinal, só queria que lhe ligassem o medo. Maçãs do rosto rosadas a contrastar com a camisola verde, Edda tratou-se e voltou a fugir, diabo de jovem. “Fantástico”, disse-nos, 15 km depois, quando a encontrámos no princípio do inferno. Até lá, o Azores Trail Run foi a mais bela das descobertas, um ano depois de termos feito a prova dos pequeninos, 21km a descer, sempre a descer. Era. Deixou de ser, mas isso é lá adiante. Até aos 25km, o Azores Trail Run é um passeio (sobe demasiado, deixamos a corrida para Tofol Castanyer e para Luís Fernandes e para Miguel Silva e para Sónia Tubal e para os outros 500 que, pronto, correm) ao longo de uma daquelas telas que apreciamos enquanto saboreamos um gin tónico no Peter, o mar à mão, aquele abraço do meio das pastagens em que cabem as vacas e as encostas e as hortênsias ainda sem flores e, ali, o Pico todo. E S. Jorge. E, até, temos sorte nos dias, a Graciosa, ténue, bela.

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(Foto Luís Campos)

Os 48km são uma interminável ascensão à Caldeira, o vulcão que teria 1400 metros e hoje é um fosso de 400 metros negativos em relação à margem, que saltita dos 800 metros aos mil e quê. Uma ascensão que Mauro fez soar a descanso, enquanto olhávamos, pequenos, de baixo, a enorme Edda três curvas acima, verde fluorescente a pontuar o verde bucólico. Falou sempre pouco. Preferia sorrir. 20km. Estamos na falda da Caldeira e Edda dá-nos 15 minutos de adianto. Palmas. Vem a parte que sabemos do ano passado, as vertigens, a mão a tocar na montanha, a outra a tocar no mar, como nos disse, há um ano, o vencedor da prova, Armando Teixeira. A nossa vista deixou de alcançar José António, o galego de Vigo, juntou-se-nos Paulo das Lebres do Sado, “sigam que vou aqui no meu ritminho”.

Mauro tem este poder de reter os bons, de bater palmas aos heróis que já cruzam o estradão de bagacinha ilha abaixo, deve ser num instante, meia hora estamos ali, certo. Paulo até quis cortar cerce, ora bolas, não é por ali, Edda já mal se distingue lá no caminho das antenas. Afinal foram quatro meias horas a progredir entre tufos e lama e a força de Edda a gozar com a nossa fraqueza, inatingível. Ainda fingimos passá-la, a dado tufo, mas era tudo treta, Mauro ia e vinha nas selfies, Paulo ia e vinha nas forças e todos demos com Orlando, agarrado à rede de telemóvel e à resistência. E aos outros, malditos tufos. Até à descida, o calvário de Edda, já nós erguíamos, vitoriosos, uma cana com uma fita de marcação, a atravessar o nevoeiro com pose de guerreiro celta, já Tofol e Luís e Miguel e Sónia e os outros tinham cortado a fita mor, no raio da popa da corrida, no raio do Vulcão dos Capelinhos, no raio da meta mais bonita dos trails de Portugal, a um raio de 18 km de distância. É verdade, estávamos nos 30, enfiados literalmente nas nuvens e já com um grupo razoável de cheio e, ó alegria, Francisco, ali, cabelos compridos e juventude ao rol da tarde que, a nós, parecia apenas manhã tardia. Edda! Olha Francisco! Abraços e tal mas olha, agora assim ligada, já não precisa de ti. E voltou a fugir, a gigante Edda.

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(Foto Mauro Gonçalves)

Fora ali, um pouco antes das vacas e do voluntário micaelense, que lhe perguntáramos pela juventude. E fora ali que ficáramos esmagados pela força de uma atleta septuagenária. E seria pouco depois dali, quando o grupo cresceu, que entraria Arlindo, o gigantesco cavalheiro de cãs, português, gentleman. Tanto que não lhe perguntámos pela juventude. Fomos, apenas, já Mauro ficava para trás com as selfies e com Edda. Descidas não eram com ela, o que nos deixa a nós, uma boas décadas mais jovens, de ar corado de respeito. Porque a subir… Era a descer. Ou era o que nos diziam as memórias da estreia desta belíssima prova. Era. Mas já não é. A organização tratou de endurecer a façanha, que aquilo, senhores, fora uma auto-estrada de pura diversão. Deixou de ser. Nasceu-lhe um morro com milhões de degraus. Nasceu-lhe um arrastamento imenso. Nasceu-lhe uma dificuldade extrema que, valha-nos deus, ali, tirou parte da graça que tínhamos guardada na alma desde a estreia, há doze meses. E até o perfil da prova, que trazíamos à cinta, era um fingimento, cópia de 2014, sem a prenda do morro extra, daquela hora que aqueles três quilómetros insanos nos levaram e em que perdemos Edda, mas ganhámos Arlindo e Paulo e um magnífico mau feitio (nosso), daqueles de que não há memória.

A beleza das corridas por trilhos é também muito esta de poder descer ao nível da sarjeta linguística, em gritos solitários de que nunca as faias que dão nome ao Faial se queixarão. Oh se descemos, enquanto aqueles degraus de meio metro se interpunham na progressão, mais a descer do que a subir, curioso isto das ultras, chega-se ao fim a desejar subir para todo o sempre, até com algum gás, amaldiçoando qualquer declive abrupto.

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(Foto Luís Campos)

Cálculos mentais, ora bem, rica corridinha de cinco quilómetros que consegui aqui, o resto foi paisagem, até aos 30 e ao tomate com sal do derradeiro abastecimento sólido. A partir daí, o Azores Trail Run é sofrimento sem vistas, são túneis de faias e outras floras, são cabeços adiante de cabeços sem nada para o olhar, para lá da popa, que imaginamos tão distante quanto a possibilidade de uma ilha crescer umas centenas de metros só porque um vulcão se zangou. São todos os impropérios do mundo e degraus, chega não?, mais degraus, mais nada, mais porra, mais… É a voz de Mauro, lá no eco do vale, a puxar pelos que restam, é o verde psicadélico de Edda, não desiste, é o desaparecimento de Arlindo. E é, como no ano passado – há daqueles sítios onde fomos felizes e podemos (devemos) voltar – o renascer de tudo o que tinha morrido, com a entrada na popa. Os Capelinhos são uma majestade que não existe, que nos sobe pernas acima, como uma massagem de vigor, a areia fofa mas estável, o prazer do declive que, de repente, deixa de doer nas canelas, até sermos capazes de conquistá-lo descalças, sapatilhas xpto na mão, que isto do xpto é tudo muito bonito mas é no preço, magma adiante, braços no ar, o mar ali, ah se me apanho nele…

É a apoteose. A de Edda, que vem no encalço de Paulo. Está com o mais belo dos brilhos no olhar, sardas a saltar do esforço, o rabo das calças ainda molhado da maldita descida da floresta, entre lama e troncos. Edda não é a última desta que, persistimos depois de refletir, é a mais bonita das corridas por trilhos que já fizemos. Arlindo é penúltimo. Antes de Mauro e da alegria de fechar uma prova com pessoas grandes, tão grandes que já não nos dói nada. Nadinha. Arlindo também tem 70 anos…

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(Foto Luís Campos)

PS: O sucesso da primeira edição do Azores trail Run está patente nesta segunda ronda. Depois de lançar 200 afoitos pelas encostas da ilha do Faial, há um ano, a prova conseguiu este ano atrair cerca de 500 atletas, atingindo praticamente o limite suportável pelos trilhos protegidos. Deixamos aqui um aviso à navegação: vale muito a pena. E, em Outubro, haverá a hipótese de correr ali, no Pico e em S. Jorge, ao longo de três dias, no Desafio do Triângulo. Daremos notícias.

Ivete Carneiro

2 comentários

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  • JOsé Martins

    5.6.2015

    Também sonhei ir ao Faial e percorrer o Gênesis da Terra.
    E achava que seria muito difícil. Pensei desistir até ao início da prova. Ribeirinha, atletas e super atletas, estou a mais certamente!!!
    Depois da partida acompanhar boa gente, Edda, Ivete, Marta, casal de alemães, Mauro atrás, máxima antiga. O caminho faz-se andando,… Depois correndo, depois de gatas e de rabo. E sós trambolhões os Capelinhos chegaram!
    Lindo demais.
    Parabéns Ivete pela bela crónica.
    Parabéns à organização e parabéns aos Açores!!!

  • Mauro Gonçalves

    4.6.2015

    As crónicas do JN são uma lufada de ar fresco no panorama do jornalismo desportivo em Portugal. A vontade de voltar ao Faial foi crescendo à medida que ia devorando esta descrição emocionante, de uma aventura que nos marcou para sempre.
    Parabéns a todos os que tornaram possível a existência desta crónica escrita, no melhor jornal diário nacional. Parabéns à Ivete Carneiro pela inspiração maravilhosa…