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O paraíso cheira a urze e fica na Estrela

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“Muito gostava eu de saber quem foi o louco (digamos que foi esta a palavra) que se lembrou de pôr umas escadas por aqui acima”, dizia a outra, tolhida pela vertigem, mãos trémulas agarradas à paredes de granito, a parecer que fechavam, as paredes, de tão estreita era a fenda por onde a mandavam descer, num desnível que era seguramente de precipício, oh se era. Seguia ao comando, dedão do pé enfiado no calcanhar de Paulo, a bravar degraus de dois metros – não, a sério, aquilo teria centenas de centímetros, só podia – avança, já tenho o pé no teu, mais um, anda, não, espera, não fujas, arre, maldita idade que traz vertigens. “Mas por que raio?”

Pois que saberíamos depois, no reconforto de uma bebida fresca com odor a queijo de ovelha curada ao balcão de uma daquelas lojas de tudo, em Manteigas, que fora mesmo uma história de raio, no que ao afastamento das paredes diz respeito. Aquele inferno de claustrofobia a pique é a famosa talisca, que sobe aos céus por detrás da casa do juiz. Lá está o autor. Era juiz. Diz que. E diz também que seria perseguido no tempo do antigo regime, que a pide lhe apareceu ali na Nave da Mestra e que, qual ser divino, o magistrado se enfiou fenda adentro e acima, amansando os carrascos com o mesmo medo que a outra teve, meter-se fenda adentro, mais a mais a descer, diabo de ideia esta a de Armando Teixeira.

Foi ele o nosso juiz do passado sábado, numa das mais perfeitas corridas por trilhos em que nos foi dado participar. No Estrela Grande trail, o ultramaratonista emprestou-nos os trilhos que são dele, porque pacientemente os desenhou, à sua imagem, duros, brutalmente desnivelados, de uma beleza que não cabe num perfil de altimetria. E porque somos muito pequenos ao pé da Serra da Estrela, escolhemos a rota dos meninos, 25 km, que diabo, não há de ser um drama. Não foi. Foi uma estafa (a recusa da palavra empeno está-nos na corrente sanguínea, empeno soa a oficina, não cola com natureza), verdade, mas de um prazer incalculável. Mais a mais quando, na linha de partida, na recuadíssima Manteigas (é tão longe, Manteigas, e tão quente), estavam algumas das maiores estrelas da corrida de montanha. E estavam ali, entre os meninos, porque este fim de semana estarão em França, na belíssima Annecy, a competir por títulos mundiais. Nuno Silva e Ester Alves em modo treino – ganharam a prova, tão previsível -, Lucinda Sousa em modo reguila – estava proibida de dar cabo do lombo, foi saltitar só enquanto aquilo subiu -, Susana Simões em modo passeio. Um luxo daqueles.

A outra, enquanto berrava aqui d’el rei ao descer a talisca, pensou neles todos. Imaginou-os a soltar-se como canalha, degraus abaixo, como se aquilo fosse só uma escada. A raspar a esquina da casa do juiz, indiferentes, só por aqueles minutos em que brincavam aos rápidos, a atravessar a Nave da Mestra sem dar por aquele perfume intenso, tão intenso – não acreditamos que o paraíso cheire melhor do que isto, parece impossível – a urze e a mel, sem dar pelo som das abelhas (não há outro, ali), sem estacar a passada, assim, sem avisar, só porque a seus pés se estendia, inatingível, tão lá em baixo, o Vale Glaciar do Zézere. E dissemos, nha nha nha nha nha, nós é que somos grandes, porque parámos e abraçámos a serra e vós não. E depois engolimos a secura da inveja quando lemos, enquanto esticávamos o ácido lático ao sol, no dia seguinte, que eles voltaram lá, frescos como o espelho da lagoa do Vale do Rossim, esse outro paraíso de maias que nos travou a alegada velocidade. Sim, que depois de subir ao céu (um exagero, Armando, bela partida nos pregaste) um desnível de mais de quilómetro, até fingimos velocidade nas Penhas Douradas, que são de ouro porque o seixo branco explode de luz entre a granítica paisagem. Dizem que é.

E mesmo depois do Rossim, onde o tomate fresco com pedras de sal provou mais uma vez ser o melhor pitéu de que há memória (pelo menos naquela altura, depois de um trote nas margens arenosas da lagoa), corremos um bocadinho. Mesmo que fosse só aquele bocadinho em que galgámos a boca da barragem, antes de tornar a subir… Até ao raio da fenda. E descer. Descer. Descer. E perceber por que é que uma corrida de montanha se mede em desnível acumulado e não apenas positivo. Porque descer pode ser um inferno, quando não há trilho e somos cabras a escorregar em transe, quando até há e não há meio de terminar, quando a promessa do último abastecimento se estende para todo o sempre. “É já ali” será provavelmente a pior coisa que se pode dizer a um corredor amador. Era longe mas estava lá, grandioso, na galera de uma carrinha de caixa aberta do município, uns garrafões em cima, as bebidas doces à sombra, a alegria das gentes serranas, “isto que são malucos”. Seremos. Colhemos uma das bandeirolas amarelas que marcaram irrepreensivelmente o percurso (exceto quando as flores eram da mesma altura e da mesma cor e os olhos são como as vertigens, um produto distorcido do crescimento), espetámo-la na mochila e descemos. Falta pouco (outra frase horrível, mormente quando os escuteiros semeados no trajeto a vão repetindo, acrescentando, três vezes seguidas, em sítios distantes, que faltavam dois quilómetros…). Deixámos de contar, de querer saber, sequer. Havia cãibras. E, sobretudo, não havia pressas. Nunca. Porque sabíamos que haveria, na meta, o abraço de Armando Teixeira, fossem as horas que fossem. E, no fim, houve aquela medonha rampa, paralelo a ferver, inesperada, destruidora. Caminhámos, trombas enfiadas. E só fingimos mesmo lá em cima, sob os apitos e as palmas dos outros e o sorriso de Armando. Ainda trazíamos o perfume das urzes a povoar-nos o olfato…

(e porque isto não é só passear, temos de fazer vénias de respeito aos duros que se aventuraram nos 85km, conquistados por Miguel Batista e Natércia Silvestre, numa prova que, por tudo o que se disse, parece ter sido o começo de uma longa e bonita história. A Serra da Estrela já merecia uma homenagem assim…)

Ivete Carneiro

 

2 comentários

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  • João Borges

    27.5.2015

    “A Estrela já merecia uma homenagem assim”

  • Rui Pinho

    27.5.2015

    Brilhante! Brilhante como as Penhas, as douradas. Excelente texto, deliciosa resenha de uma prova de apenas 25 km, mas que nos transporta a todo um mundo que só o trail nos dá, e só quem tem arte na pena nos mostra.