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Descer à história subindo montanhas
O Alentejo é uma sucessão de planícies, de mantos amarelos a cobrir suaves colinas pontuadas do verde de um sobreiro, do branco de um aglomerado, de… Não. O Alentejo é um relevo impensável, um horizonte acidentado onde os picos têm torreões, lá em cima muito alto, para lá dos mil metros. O Alentejo é a “nonchalance” da conquista do já ali, que o nosso atleta-repórter Rui Pinho conta com uma clarividência só dele, a que sobra, ampliada (contra-senso?), de uma volta de três dígitos pelo plano país que é o nosso. Uma clarividência com que foi possível descer à história subindo montanhas. Três dígitos de Alentejo é isto, uma prosa calma sobre 20 horas rápidas e acidentadas. E como nos parece que as fizemos contigo, Rui…

  
O Alentejo é essencialmente plano. E deve ser o último lugar para onde mandamos alguém quando nos pedem lugares com uma vasta variedade de floresta. Habituamos a memória a uma imensa planície, salpicada por manchas de sobreiros, povoada por olival, vinha, searas, numerosos rebanhos, tudo numa pachorrenta harmonia com o amarelo do sequeiro ou o verde da época das chuvas. As vilas e aldeias, imaculadamente brancas e abençoadas por uma torre sineira, aglomerados de casas onde o tempo corre devagar, demoradamente, como o pôr-do-sol, que se prolonga num horizonte longínquo que parece sempre ali à mão de semear. 
Região mais habituada ao trabalho árduo da ceifa e do arado do que ao sobe e desce das encostas, tem no Distrito de Portalegre a marca da nossa longa história. Habitada desde tempos primitivos, do Paleolítico aos Romanos, foi também fortificação moura. Com longas calçadas romanas e fortificações que defendiam terras senhoriais, a Serra de S. Mamede foi palco, durante séculos, de guerras defensivas. Lugar privilegiado para observar o horizonte, o ponto mais alto – 1025 mt – é uma natural e excepcional torre de vigia a 360 graus. 

Alegrete, Marvão, Nossa Senhora da Penha (Castelo de Vide) e o Monte da Penha – de onde se mira Portalegre – são os pontos altos de uma prova que é uma excelente escolha para quem queira, ora conhecer a região, ou estrear-se numa prova de 3 dígitos. Se se ficarem pelos 42 km perdem a fantástica primeira parte, mas têm maior disposição para apreciar o trajeto belíssimo de Marvão até à meta. 

Com mais de 600 atletas inscritos, a corrida começou numa espécie de largada em massa para o monte, envolta por uma nuvem constante de pó. Até à malfadada calçada, que começa em Marvão e parece não ter fim, a queixa era o pó. Depois era o calor e a pedra. Temos sempre algo para nos queixarmos, e se não tivermos arranjamos. Voltando atrás e ao início, a prova começa num belo ziguezague por montes sobranceiros a Portalegre, cruzando portões, estradas, campos, multidões de populares que aclamava todos por igual num ruidoso apoio que se saúda, até ao concorrido abastecimento de Alegrete, aos 20 km. Dizia um repetente espanhol que era um belo aquecimento para o que vinha a seguir. Pouco importava. Era para fazer. Fiquei com a sensação que não era preciso aquecer para nada. Entre o deslumbre da vasta floresta, do carrossel de luzes nas imensas curvas da Serra de S. Mamede e de toda a simpatia das pessoas da organização, a minha vontade era planar sobre tudo aquilo e admirar o fantástico trabalho que ali foi montado. E sobre aquela beleza que nos mostra o trail, e o ultra trail em particular. Andamos todos num esforço titânico, mas mais facilmente se encontra ali uma cara de felicidade do que numa poltrona com um gigante ecrã HD na frente. É formidável o efeito de conquista por cada subida terminada, por cada PAC (posto de abastecimento e controlo) alcançado. E é admirável o esforço de todos os voluntários para, com um sorriso, nos abrilhantar o modesto feito e nos incentivar a mais uma incursão nos trilhos, no calor, no sofrimento de quem sabe que apesar da irracionalidade do desconforto, da inevitabilidade do empeno, teremos na meta a glória da satisfação do ser capaz. 

De novo ao percurso, só me ocorre dizer que, à boa maneira alentejana, os destinos são todos “já ali”, temo-los quase sempre à vista, mas demoram imenso a alcançar. Depois da Serra Fria, onde vi o mais belo nascer do sol, são voltas e mais voltas, sempre com Marvão à vista, sempre aparentemente perto, mas a custar conquistar. Mesmo depois de estarmos à porta da muralha, voltamos a descer para uma incursão mais medieval, monte acima, saídos de uma densa floresta. Ali, com a muda de roupa e os 60 km alcançados, saem conquistadores os que chegaram moribundos. Depois é desfrutar do carrossel por calçada e trilhos, apreciar Castelo de Vide vista do Pouso, no alto da Serra de S. Paulo desfrutar da vista sobre a planície alentejana, a perder de vista, a Sul, e da Serra da Estrela, a Norte. 

Esqueçam o calor, o pó, os pés massacrados pela calçada, os músculos que gritam por descanso, ou o corpo que pede a cama e o sono que ainda não teve. Esqueçam. Mergulhem na piscina do Convento de Proença – o UTSM deve ser a única ultra com uma piscina num abastecimento – bebam das fontes que forem encontrando nas vilas e aldeias que cruzam, aceitem as bondades dos simpáticos voluntários e desfrutem do melhor que esta ultra nos dá – uma perfeita simbiose entre conquista pessoal e conquista de território desconhecido. O formidável Alentejo, onde tudo parece ter o dobro do que realmente tem, merecia uma prova assim. Depois de tentarem acertar o melhor percurso, os incansáveis João Carlos e Maria Vitorino, casal que lidera a excelente organização do Atletismo de Portalegre, têm agora a espinhosa missão de manter imaculada a imagem de uma prova dura, embora acessível (e não vale a pena dificultar mais), e que pode e deve ser uma excelente propaganda do Alentejo e de Portugal. Para a embelezar ainda mais, talvez passarem a prova curta para o fim da tarde de Sábado ajude a emoldurar o despido Estádio dos Assentos, que contrastava com a excelente moldura humana da hora da partida. 


Diz a lenda da Senhora da Penha que um pastor, ao ver um grupo de malfeitores que se preparava para lhe roubar o rebanho, invocou a Santa, que lhe apareceu num burrinho (ainda hoje se podem ver socalcos no granito que dizem ser pegadas do animal), e do dia fez noite cerrada, impedindo assim o roubo. Ao subir para esta Capela, existe um assento em pedra. Conta o povo que quem aí se sentar e pedir 3 desejos e não os revelar a ninguém vê-los-á concedidos. Não pedi nenhum porque só depois soube da história. Mas é curioso que, quando me sentei lá, achei que era um excelente lugar para desejar longa vida ao UTSM e agradecer a oportunidade de poder apreciar tão belo quadro. Afinal, quantos de nós descobriram S. Mamede graças a esta prova? Quantos dos que passam por Portalegre se estreiam na distância mítica de 100 km? Quantos descobrem ali serem capazes de dar mais um passo do que deram na última tentativa? Quantos sorrisos arranca esta organização? Arrisquem fazer da noite dia. Descubram um recanto de sobreiros, azinho, pinhal, mantos de fetos; sintam vosso o santuário de águias e pica-paus. Apreciem o nascer-do-sol, e se demorarem a prova para lá das 21h, apreciem também o ocaso. Tudo é belo, demorado e intenso visto do 1º balcão deste belo cenário alentejano. Apreciem a tela. O espectáculo montado é de primeiríssima qualidade. Que se mantenha assim. 


Rui Pinho


  


– Resultados e mais informações (inclusive o tempo que falta para a próxima edição) em http://www.utsmportalegre.com/

(Foto: João Pedro Costa, vencedor do 1º Concurso Nacional de Fotografia Quercus – BMW na categoria de “Natureza e Paisagem”, com “Amanhecer em Marvão”)

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