Fomos correr com os senhores do GISP

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Assim dito parece um nome feio, mas garantimos que são rapazes jeitosos. Diríamos até que são as cordas mais interessantes que já vimos numa corrida por trilhos. Por partes: são os senhores do Grupo de Intervenção e Segurança Prisional – GISP – que, desde que têm delegação no Norte, decidiram assaltar os montes em redor do Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bispo, em Matosinhos. Quer dizer, João Paulo Gonçalves decidiu. É atleta de trail de alta roda, com nome em pódios por aí (e, para quem lá esteve, foi o homem por detrás da marcação diária do Peneda-Gerês Trail Adventure, num tirar e pôr diário que lhe meteu 350 km nas pernas…) e treina todos os dias. “Como não gosto de treinar em estrada e como o meu local de trabalho é aqui, tentei descobrir trilhos fora do alcatrão e do paralelo. Em cinco anos, descobri tudo isto”.

E tudo isto são 12 km que fizeram da nossa uma manhã muito bem passada, a 15 minutos da cidade grande, na bucólica paz de uma freguesia que tem muito mais do que um estabelecimento prisional. Tem dois, um masculino e um feminino, mas não era a isso que nos referíamos. Santa Cruz do Bispo tem a Ponte do Carro, uma belíssima herança medieval que cavalga o Rio Leça, ainda estreito, por ali, no regaço de dois montes curtos. E tem o incompleto Homem da Maça com o seu incompleto leão, no topo do monte de S. Brás, onde a romaria invernal consiste em dar um abraço à barbuda estátua e pedir um casamento, ou jorrar-lhe vinho na cabeça agradecendo um filho varão. Santa Cruz do Bispo tem ruralidade e gente com joviais bons dias de sábado. E desnível. Não muito. Apenas o suficiente para nos puxar pelos adutores. E Santa Cruz do Bispo tem, também, escorrências da urbanidade em que desagua, lá longe, com o Rio Leça. A mais bela delas é uma linha de comboio – verdade, corremos ao lado dela, um quilómetro ou até mais, e ela mostrou-nos que a industrialização pode ser primaveril, com as suas margens pintadas de flores do campo.

Foi tudo graças a João Paulo Gonçalves e ao ginásio onde os senhores do GISP enformam a aparência, o Kangaroo. E foi tudo grátis. Foi o Free Trail do Homem da Maça, que ofereceu a descoberta de trilhos para quem os queira usar, um passeio pela história de Matosinhos, um abastecimento bem recheado no final e, lá está, as belíssimas cordas do GISP. Ofereceu, ainda, a prova que se consegue fazer trail com partes técnicas praticamente no quintal de casa. E que é fácil ser solidário.

Era sugerido a quem viesse que trouxesse uma moeda que fosse para contribuir para uma plataforma elevatória para uma doente com paralisia cerebral. A Ritinha, explicou-nos Ricardo Bomtempo, do Kangaroo, “é uma história triste como muitas histórias em Portugal, infelizmente”. Abandonada pelo pai à nascença, por ser doente, sobreviveu à custa do esforço da mãe, que a criou e ao irmão, na solidão. De solidariedade em solidariedade, Rita viu crescer uma casa em S. Mamede de Infesta. Falta-lhe agora uma estrutura que lhe permita sair à rua. “Para que ela possa vir para o exterior e beneficiar deste sol como nós”. O free juntou 340 euros, os organizadores arredondaram para 500 euros, ontem entregues à causa.

A ideia surgiu numa espécie de intercâmbio, o ginásio cede instalações ao GISP, o GISP cede “instalações” ao ginásio, que assim prolongou os treinos “Corre bem… corre connosco”, que organiza às quartas-feiras, com acompanhamento de treinadores e abertos a quem neles entender participar (e mais de 80% dos participantes são externos), explicou-nos Vítor Martins, admitindo que o interesse das pessoas parece estar cada vez mais a centrar-se na corrida.

O resultado foi uma corrida por trilhos muito bem marcados, com a vasta equipa do GISP a estender a mão em todos os obstáculos e um rasto de cartazes carregados de humor ao longo do percurso. E 500 pessoas a correr no campo de treino dos guardas, assim, de repente, e a beber da bica da fonte junto à Ponte do Carro. “Haverá mais”, prometem Vítor Martins e João Paulo Gonçalves, que nunca pensou ver tanta gente numa terra que, diz ele, nem na romaria anual junta semelhante povo.

Ivete Carneiro

(Foto de baixo: Marlene Lopes)

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2 comentários

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  • Jose Mateus Tavares

    12.5.2015

    Ao nível da organização muito melhor que a maioria das provas que já participei pelo pais.

    parabéns e obrigado pela iniciativa.

  • Claudio Taveira

    12.5.2015

    5 estrelas