Bruno, o corredor descalço

Ali a meio da corrida, iria Bruno a aproximar-se dos belíssimos cais parisienses do Rio Sena e sentiu uma palmada no ombro. Olhou e viu um atleta como ele. Descalço. Não é caso único em Portugal, mas Bruno Martins será seguramente caso raro.

Era uma maratona que se corria ali e Bruno estava, ainda, a gerir a ansiedade. Era a primeira vez que se lançava a semelhante distância. E lançava-se assim, sem calçado, sobre um piso que sabia “algo complicado”, ora em paralelo, ora em alcatrão, nem sempre certo. “A corrida mais longa que tinha feito descalço tinha sido uma semana antes, 34 km”.

Bruno Martins voara de Portugal “bastante ansioso”. A decisão de testar a resistência na cidade luz fora tomada havia um ano, apenas uma curta semana depois de ter arrumado as sapatilhas ao fundo da gaveta. Achou que teria tempo para se preparar e avançou. Mas descalço porquê? O contabilista de 41 anos já corria há dois anos, mas com os pés devidamente amparados, como o comum dos mortais. Foi pura “ironia”. “Andava à procura de uns ténis novos de corrida e fui dar com um artigo de um jornalista que dizia que os ténis de corrida eram toda a causa das lesões que temos quando corremos”. Convenceu-se, descalçou-se, tirou as meias e arrancou.

“Sentir o solo faz com que toda a nossa forma de  corrida se altere” e “para melhor”, garante Bruno. “Conseguimos correr muito mais descansados, com muito menos esforço, sem dores musculares e sem lesões”. E, a prazo, sem olhar já à textura do piso que recebe o impacto ou, sequer, do lixo que por lá possa haver. A despreocupação é como a de quem anda de sapatilhas, a do costume, a da descontração. Até porque “as ‘solas’ começam a ficar muito mais resistentes”.

Solas. É precisamente a coisa que mais espécie parece fazer a quem olha os pés de Bruno. Já devem ser couro rijo, não? “Não estão duras, estão até bastante mais macias… mas muito mais resistentes!” Apenas mudou a aparência dos pés, os dedos ficaram mais largo e o próprio pé também. “Uma das razões por que comecei a correr descalço foi por acreditar que quem corre assim consegue correr até ser muito muito velhinho”, diz bruno, que já marcou na agenda os próximos 42195 metros: Lisboa, em outubro.

Em Paris, foi percebendo que era possível chegar ao fim. Bastava aproveitar o que o rodeava. No fim, o relógio marcava 3:46.22. calçou-se, alongou e seguiu a vida. “Nunca mais hei de correr calçado, seguramente”.

Ivete carneiro e Catarina cruz

0 comentários

Leave a Reply

Faça login para comentar