Jorge, Nuno, a tetraplegia e a Wings for Life

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“Este ano tenho o mínimo para poder vir a fazer resultados”. Numa curta entrevista televisiva após a primeira vitória no Campeonato Nacional de Supercross de 1990, em Braga, Jorge Alves, olho azul brilhante numa cara suja do desafio, era a expressão da esperança própria da juventude. Tinha 23 anos e finalmente condições para mostrar “aquilo que valia”. E prometia fazer por manter boas perspetivas para o ano competitivo. Pouco depois, a 14 de junho, em Portimão, Jorge corria atrás do pódio a mostrar efetivamente o que valia. “O Jorge já fazia aquelas manobras aéreas como os americanos. Saltava e soltava ora as mãos, ora as pernas”, um ídolo para Nuno Jesus, piloto então a crescer cujo maior troféu é uma foto tirada na grelha de partida de uma corrida em Santo Tirso, em 1989, ele com o número 21 e, dois lugares ao lado, Jorge com o número 3.

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Em Portimão, Jorge seguia em segundo, a volta e meia do fim da corrida, quando na zona de um triplo salto apanhou “um piloto atrasado”, a passar a dificuldade salto a salto. Aguerrido, o jovem de Paredes optou por uma trajetória diferente. “Nunca atribui culpas a ninguém”. A pista ali não estava acamada pela passagem das rodas. Caiu. A mota ficou ali, no pó. Ele foi de rastos, de costas, até ser travado por um morro de terra, em cheio na cabeça.

Jorge mantém a vivacidade azul no olhar. Sentado numa cadeira de rodas à sombra de uma palmeira da Cantareira, na Foz do Douro, lembra-se de que se lembrou sempre de tudo. A cervical, a consciência alerta, a certeza de que o que viria a seguir seria  muito duro, a imobilidade total do pescoço para baixo. Os hospitais, Portimão, Lisboa e a operação, o diagnóstico – tetraplegia -,  a Prelada no Porto e o sul de novo, no Alcoitão. Sete meses. “Recuperou” parte dos braços, a mão esquerda e algum equilíbrio no torso. E agarrou a vida. “Foi começar do zero até chegar ao ponto de conseguir conduzir um carro”. Nunca deixou de trabalhar no concessionário de motas que mantinha com o pai até o negócio ceder à crise, nunca se afastou, sequer, do mundo que lhe roubou a vida como a entendia antes de 14 de junho de 1990.

No dia 3 de maio, Jorge vai estar na linha de partida da Wings For Life World Run, a corrida solidária que acontece em 36 sítios do planeta ao mesmo tempo, para angariar fundos para a investigação das lesões da espinal-medula. Jorge, 47 anos, mais de invalidez do que de vida livre, estará na velhinha cadeira de rodas, empurrado por Nuno, a personificar todo o significado desta iniciativa de uma fundação que nasceu da negação da fatalidade.

Hannes, filho do bicampeão mundial de motocrosse Heinz Kinigadner, teve uma história que poderá ser contada como a de Jorge Alves. Ou, mais recentemente, como a de Henrique Venda. Ficou tetraplégico num acidente de mota. O pai teve a sorte de cruzar, certo dia, o fundador da Red Bull, Dietrich Mateschitz, e, na busca do impossível, descobriram que a ciência já provara que as células nervosas da espinal medula tinham capacidade de regeneração. E descobriram o pior: que as lesões como a de Jorge afetam milhões de pessoas, em número economicamente insignificante para se investir a sério na sua investigação. Nascia a Wings for Life. A corrida, essa, surgiria em 2014, fruto da necessidade de se fazer algo gigante para chamar a atenção das pessoas: uma corrida simultânea em todo o mundo e com um conceito único – a meta é um carro que arranca da partida 30 minutos depois do pelotão e vai eliminando os participantes à medida que passa por eles.

Este ano, o palco português da corrida mundial é o Porto. Nuno Jesus, transitário e fã de Kinigadner, conhecia a Wings for Life, porque entretanto fez-se amigo do ídolo Jorge, cuja condição faz por ultrapassar. Leva-o às corridas em que ainda participa e Jorge até dá dicas aos mais jovens. A prazo, haverá um troféu Jorge Alves, cujo sonho é ter uma equipa. “Era impossível não participar, a lesão da espinal-medula anda sempre na sombra do motocrosse”.

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Jorge confessa alguma apreensão: a cadeira é pesada, Nuno tem um défice de audição, Jorge já pensou arranjar um funil. E ri-se, como uma criança. “Estou feito”. Estar muito tempo na cadeira a ser conduzido não é o mais fácil, cansa-se do esforço permanente para se equilibrar, sabe que a irregularidade da estrada vai castigá-lo. Mas aceitou o desafio. Para que pessoas como ele saiam para a vida. Para que o mundo olhe para eles, para o brilho do olhar azul travado na juventude. Para que haja uma cura. Jorge acredita que haverá. “Mas julgo que não será para mim”.

“Vamos caminhar”, admite Nuno, mostrando as medalhas vitalícias que o motocrosse lhe deixou nos joelhos e nas canelas. Foi dos primeiros a inscrever-se e já tem o nome em duas equipas diferentes. Porque tudo é permitido nesta corrida do avesso, em que o objetivo é correr o mais longe possível (o recorde de 2014 foi de 78 km e uns trocos) e cujo valor de inscrição (25 €) reverte a 100% para a investigação. No ano passado, a World Run rendeu 3,2 milhões de euros.

Ivete Carneiro

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