A maratona de Siabatou

siabatou696

Siabatou Sanneh caminha. Caminhar faz parte da vida dela. Da sobrevivência. Siabatou, 40 anos, caminha todos os dias. Maratonas. Por água potável. E Siabatou foi fazer-nos corar de respeito no passado dia 12 de abril, armada do dorsal 64173, na linha de partida de uma das maiores maratonas do mundo, na cidade (permitam-nos) mais bonita e opulenta do mundo, Paris. Pregou o dorsal na capolana, Siabatou. E envergonhou-nos a todos, pseudo atletas com medo de desidratar, com camelbak discretos ou ridículos microbidões de água à cinta. Siabatou trouxe o bidão dela da Gâmbia de onde saíra, dias antes, pela primeira vez na vida. E veio mostrar ao mundo mais rico que esta coisa das maratonas é o que ela faz todos os dias, para sobreviver.

Estava de sandálias e capolana colorida. E há uma foto, entre milhares, que nos faz mal. Ela que nos veio dizer que a água a faz percorrer diariamente a distância de uma maratona cruza, na marcha acelerada da cauda do pelotão parisiense, um carro de bombeiros dos que pontuaram o percurso, a regar corredores ressequidos. Estavam menos de 20 graus naquela soalheira manhã parisiense, o sol não moía por aí além, mas Paris despejou milhares de metros cúbicos de água sobre nós, desperdiçados assim, na brincadeira de uma corrida.

Siabatou não bateu recordes. Nem sequer foi classificada. Mas Siabatou venceu a maratona: era dela que falavam os noticiários da manhã seguinte nas rádios francesas. Foi dela que se falou nos jornais e nas redes sociais.

“Em África, as mulheres percorrem todos os dias está distância por água potável. Ajudem-nos a reduzir a distância”, lia-se no letreiro que transportava, além do bidão. “Os africanos estão cansados”, explicou a quem lhe perguntou, pouco antes de arrancar, naquele dia em que arrancava também, na longínqua Coreia do Sul, mais um Fórum Mundial da Água. Um poço com bomba custa 4900 euros e constrói-se em cinco dias, mas são ainda demasiado poucos para garantir que a maioria da população africana tenha acesso a água que não seja sinónimo de doença.

A iniciativa foi pensada pela ONG britânica Water for Africa, que já conseguiu financiar 120 poços em várias aldeias africanas. A Gâmbia de Siabatou, uma das mais pequenas nações africanas, precisa de 200 a 300 para servir as populações e substituir poços que já estão envelhecidos.

Ivete Carneiro

 

1 comentário

Leave a Reply

Faça login para comentar

  • André Correia

    21.4.2015

    Na corrida cada um de nós tem um objetivo,
    FORÇA SIABATOU !!!!! NÃO DESISTAS DE LUTAR PELO O QUE QUERES!!!!!!