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MIUT: a história de uma desistência que se tornará insistência

Passou uma semana sobre o Madeira Island Ultra Trail. Foi o tempo que tivemos de esperar para que o nosso cronista Rui Pinho digerisse a prova. Teve de deixá-la a menos de meio. E é com uma surpreendente e emocionante humildade que nos fala da palavra desistir. Desistir é aprender. É começar. É prometer regressar para engolir a montanha.

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Esta é a história de uma desistência que se tornará insistência. É a história da minha participação no Madeira Island Ultra Trail (MIUT) de 2015, mas é também o início da história da minha participação em 2016.
Uma semana depois, a ansiedade que os 358 dias que me separam do MIUT 2016 passem rápido faz-me ter vontade de treinar, treinar e treinar. Ir para uma montanha mais inclinada do que a subida a Estanquinhos (haverá?) e fazê-la até ser fácil. Será seguramente este o estado de espírito dos que, como eu, não terminaram. Por uma ou outra razão.

Um abandono de uma prova é sempre motivo para questionarmos tudo e mais um par de botas. Mas porquê? Abandonei porquê? Encontrar desculpas é sempre fácil e cómodo,  mas eu passei seis dias a encontrar formas de não voltar a fazê-lo. E as sandes de presunto e as camisolas térmicas regressarão à mochila.

Não, não sou atleta de eleição, sou um lutador que cometeu um erro (ou vários) ao achar que a condição física é suficiente para terminar uma prova como o MIUT. O MIUT, como outras, obriga-nos a dar o melhor de nós e a usar aquilo que achámos que não somos capazes. E a ter atenção redobrada aos pormenores – alimentação, roupa, calçado, hidratação. Eu descurei alguns e tornaram-se pormaiores.

Correr o Madeira Island Ultra Trail é um sonho que tão depressa se vive como nos queima num inferno de emoções e sensações. O Armando Teixeira diz que é correr enquanto se toca o mar com uma mão e a serra com a outra. Aquilo que eu experienciei foi correr no paraíso, sentindo-me no inferno. Ninguém vence o MIUT. Há muito quem termine os 115 km, mas ninguém vence aquela “demolidora”, nas palavras do Luís Mota, prova. Ninguém. Há seguramente formas diferentes de descrevê-la, mas a prova rainha do trail em Portugal não deixa ninguém sem marcas. Termina-se o MIUT, mas sentimo-nos sempre vencidos, principalmente pelo desejo de voltar.

Há um ano, enquanto acompanhava a Susana na sua epopeia de 85 km, com todas as assombrações que este ano a fizeram sorrir, o poder avassalador das inacabáveis subidas e do cansaço que chega como um qualquer nevoeiro abraça aos picos aumentava a minha vontade de estar na partida de 2015. E lá estava eu, com toda a esperança de terminar, na partida de Porto Moniz, entre os quase 400 corajosos. Afinal, soçobrei à força dos elementos aos 30 km, onde o frio era forte, tão forte quanto os 3000 metros de desnível positivo já acumulado, e onde escasseavam os alimentos. Foi mais curto do que as quase 26 horas em que a acompanhei, à distância minimizada por um telefone.

A história deste meu MIUT 2015 terminou tão abruptamente como começa a prova. Subidas intermináveis por densas florestas borrifadas de humidade. Ninguém fala. Partimos num carrossel de pontos de luz rumo ao Fanal. Há apoios de populares aqui e ali, enquanto a subida cruza casas. Depois, só água e floresta. E degraus. O MIUT é um hino aos degraus. É um museu de degraus. Há-os de todas as formas, feitos de troncos de árvores, em pedra ou esculpidos no alcatrão. Depois há subidas que parecem ter fim, mas lá chegados há sempre uma enorme montanha por trás para subir. A subida para o abastecimento de Estanquinhos, aos 30 km, é digna de figurar na galeria das maiores atrocidades que se podem proporcionar ao corpo. Um serpenteado com uma inclinação incrível,  que nos leva a subir mais de 1300 metros em menos de 9 km, nos primeiros dos quais havia quase tantos atletas a subir como a descer de volta ao abastecimento.

Depois dos 1492 metros dos primeiros 16 km, aquela subida fez-me esgotar a energia. Ali chegado, com 7h25 de prova e ainda 85 km para fazer, pouco havia no abastecimento. Apesar da tentativa de aquecer, junto de 2 aquecedores e envolto num cobertor, já não conseguia produzir calor. Cedi à consciência e decidi ficar por ali. Triste, mas com a certeza de regressar e terminar esta prova rainha do trail. Voltei a Machico de autocarro e encarnei o papel de apoiante e dos que sofrem por fora.

Sobrou a consolação de ver a chegada de tantos finishers felizes, de ver o esforço compensado de todos. Estar ali e saber o que todos sentem tem um significado especial. E ter esperado a Susana na meta também. Ver o seu emocionado sorriso de vitória sobre os seus fantasmas compensou o ano de espera. Cabe-me a mim agora a espera. Como outros, que desistiram há um ano e voltaram com cuidados e preparação redobrada para vencer os 115 km de paraíso infernal. Sommer, Lizardo, Picão, Pratas, Luís Mota e tantos outros, que me fazem respeitar este purgatório que inicio, rumo à edição de 2016. Parafraseando o Sommer, que nos delicia com as suas crónicas, sinto-me cadáver, mas com vontade de ressuscitar e renascer. O paraíso prometido é a belíssima ilha da Madeira, em modo resistente/insistente, a sofrer nas pernas as promessas sagradas.

Desistir nem sempre é uma decisão sensata, como muitas vezes continuar também não o é. Mas desistir no MIUT é sentir na alma a força da montanha a engolir-nos. Na Madeira, quando levantamos os olhos e vemos todas aquelas monstruosas maravilhas, temos o impulso de correr para elas. Temos vontade de mergulhar nas entranhas de uma ilha que é todo um ventre de natureza imponente e bela. Fazer um trail na Madeira é sentirmo-nos lava saída de um vulcão. Tudo arde de tão belo. E tudo é sereno como o céu. É o esplendor da natureza e não é à toa que lhe chamam a pérola do Atlântico. E eu perdi muito do que havia para ver. Hei-de voltar para vivê-lo e tentar o final feliz.

Na corrida como na vida, há alturas em que devemos alterar os acontecimentos antes de sermos engolidos por eles. Há na desistência uma enorme carga de energia emocional, que nos faz ser mais fortes e mais conscientes das nossas dificuldades. Nas ultra distâncias não há desistentes, há resistentes e há quem abandone por esta ou aquela razão. Quando abandonamos uma prova voltamos mais tarde para conquistá-la. E aí, mais preparados e avisados, dobramos as tormentas com redobrados cuidados e empenho.

Venham ao MIUT. A prova tem uma excelente organização, voluntários simpáticos e sempre disponíveis, bom apoio logístico e a mais importante componente do trail: natureza imponente e bela. É “A prova”. Lá estarei em 2016 para a começar. E para tentar terminar esta história com um final feliz.

Rui Pinho

3 comentários

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  • Antônio Senem da Cruz

    21.7.2015

    Me chamo Antônio, brasileiro, apaixonado pelo Trail e pela montanha.
    Me encantei com o texto do Ruim Pinho. Me prepararei para 2017.

  • Domingos Morais

    21.4.2015

    Uma bela história… De uma bela prova vivida.

  • José Guilherme

    20.4.2015

    Foi o ano de aprendizagem. Também vou querer participar em 2016…vamos ver o que me dizem as pernas! Bons treinos!