David Tavares, o campeão que foi atrás da moda

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Já bate a meia noite da igreja de S. Pedro de Avioso, na Maia, quando David Tavares, 54 anos, sobe ao pódio do Trail do Lidador by Night. Foi o primeiro entre os corredores com mais de 50 anos a cruzar a meta de 18,5 km de pura diversão por trilhos do Avioso e de Alvarelhos. No céu, havia a lua cheia. No palco, ele foi apenas uma das estrelas que abrilhantaram a noite. A organização da Confraria Trotamontes quis fazer mais do que mais uma corrida de montanha: encheu-a das estrelas que, nos anos 80 e 90, antecederam esta estranha moda das corridas.

Moda? David admite que sim, poderá ser. A verdade é que foi esta febre da sapatilha que o pôs a olhar por ele abaixo, um ex-campeão regional e quarto nacional de corta-mato e detentor, à época, da segunda melhor marca europeia numa meia-maratona, três segundos atrás de Carlos Lopes e muitos abaixo do comum dos mortais (ganhou Haia em 1:02.48). E o que David viu foi um homem envelhecido no sedentarismo. “Parei durante muitos anos (mais de 20), engordei, fui aos 80 e tal quilos” (é de baixa estatura).

Certo dia, estava um daqueles dias de cão, vá, e aconteceu estar de férias. “Foi por brincadeira, eu a minha mulher estávamos de férias e o tempo estava mau para ir para a praia – a gente não tem dinheiro, ficamos aqui na Madalena – e diz ela, “Ó vamos fazer umas caminhadas”. De caminhada em caminhada chegou à corrida e até ela já corre. E já ninguém lhe grita ‘Olhó tolinho, vai mas é trabalhar!’, a ele que é operário e treinava de madrugada ou à noite.

Naquele dia de prova de trail, fora com ela de manhã fazer um trotezito de uma hora, ainda que ela temesse arruinar-lhe  a prova. “Não não te preocupes, a classificação não é muito importante… E por acaso até me senti bem. Fiz 1.46 horas, por aí”. E fez pódio, insistimos.
O dia em que David Tavares olhou por ele abaixo foi em setembro, há sete meses. Seguiu a moda e dedicou-se à montanha. Na verdade, apesar dos recordes, nunca gostou de pista. E quem diz pista diz estrada. O atleta só abriu uma exceção para correr em Paranhos, na prova do clube que lhe deu camisola e épocas de ouro. “Uma clássica que já ganhei, havia vinte anos ou lá o que era que não ganhava um atleta da casa e eu quebrei esses enguiço, foi fenomenal na altura.”

Mas, afinal, o trail é igual ao corta-mato? “Ainda há bocado o Juvenal dizia-me, ‘Este é o teu terreno’, dureza, sempre gostei. Alguns tinham desnível, muita lama”. Era igual, no fundo. Tirando as distâncias, “estas coisas dos 100 km…”

Ivete Carneiro

 

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