Ela é a mãe dos filhos de Alaluddin

Maria da Conceição é portuguesa, educa 200 crianças no Bamgladesh e corre por fundos. Ganhou mais fama após conquistar o Guinness da mulher mais rápida a correr sete maratonas em sete continentes. Mas já subira ao topo do mundo pelos seus “filhos”.

Mohammad Alaluddin é o pai dos filhos de Maria. “Dos meus filhos”. Insiste. De alguns deles pelo menos. Mohammad Alaluddin passou a vida nas favelas de Dhaka, onde lhe reduziram o nome para mister Alal. Nunca soube ler. Nem escrever. Só puxar o riquexó e sobreviver.

Conheceu Maria quando ela decidiu que os três filhos dele seriam os dela e iriam passar a infância na escola. Aprendeu inglês, ele. E voou com ela para o Dubai, para trocar riquexós por suaves cadeiras de rodas, empurradas sobre os chãos polidos do aeroporto do Dubai. Passou a ganhar num mês aquilo que o riquexó lhe trazia em dois anos.

Certo dia, parou para pensar, imaginamos que sentado num carrinho de aeroporto (quem nunca pensou na vida sentado num carrinho de aeroporto?), olhou para onde tinha estado e para onde estava. A diferença era o “conhecimento”. Agarrou nele, no mês de férias ao cabo de um ano e em tudo o que poupara depois de enviar dinheiro para a família. E fez o que lhe tinham feito. Construiu uma escola em Kurigram, bairro de lata como os muitos que contornam a capital do Bangladesh, fossos de pobreza ampliada ao infinito. Hoje, oferece aulas gratuitas a 59 crianças.

Maria chora quando, sentada numa máquina de ginásio de um hotel em Lisboa, agarra no exemplo de mister Alal, “a maior compensação”. Maria é do Céu e da Conceição e não tem filhos. Só 200 crianças no Bangladesh. Agora. Já foram 600, mas a crise trocou-lhe as voltas desta estranha maternidade. Vive no Dubai e esteve em Portugal para apresentar um livro em que a história de mister Alal toma poucas linhas. Porque é apenas o exemplo que a põe, ali, naquele momento, a chorar. E Mohammad Alaluddin limitou-se a perpetuar Maria, que decidiu, um dia, ao olhar o olhar de uma criança bengali e ver nele um espelho, perpetuar Cristina, a angolana viúva e mãe de seis crianças na miséria que tomou conta dela na falta de condições de Henriqueta, a portuguesa igualmente pobre que fez amanhecer Maria em Vila Franca de Xira, no dia 23 de maio de 1977.

De cume em cume

A vida é uma montanha russa, diz-nos Maria. Conhecemo-la porque ela se notabilizou a correr. Nada a ver com Alal? Tudo. Começou a correr porque percebeu que se fizesse loucuras de sapatilhas calçadas isso lhe traria holofotes. Parece ter conseguido. Antes, fizera-se alpinista e fora a primeira mulher a plantar as Quinas no cume do Evereste. Subira para contrariar o desespero em que viviam os seus filhos. Em vão.

Tudo começara com aquele olhar inocente, numa viagem entre o aeroporto e o Sheraton de Dhaka, onde a Emirates põe as tripulações a pernoitar. Ou melhor, começara mais lá atrás ainda. Na morte de Cristina, em 1986. Na adolescência a saltitar entre irmãos adotivos e um colégio interno que lhe estendeu a mão por ser desgraçada. Na fuga para algo melhor. Na ida para a Itália para ser assistente e perceber que essa era a palavra bonita para acompanhante. Na subida à Suíça e na busca de Henriqueta. Na desilusão e no encontro feliz de uma irmã em Londres. Até ao anúncio a pedir hospedeiras para a Emirates. Tinha 26 anos e levantou voo. E este parágrafo todo dá apenas a primeira volta à montanha russa.

“Quem cria seis, cria sete”, dissera sempre Cristina, quando os serviços sociais queriam resgatar Maria. “Eu reconheci-me em cada rosto daquelas crianças” de Dhaka. “Foi um pouco como viajar ao passado e pensar: se a Cristina tivesse sido indiferente às necessidades da minha mãe será que eu estaria onde estas pessoas estão hoje?” Começava nova volta na montanha russa. Construiu o The Dhaka Project, recebeu galardões, foi sendo enganada aqui e ali, manteve os miúdos debaixo de olho e criou a Fundação Maria Cristina. Só podia ter esse nome.

Todos os nomes

Nomes. Sabe-os dos filhos todos. Mesmo daqueles que a crise lhe roubou. Ainda tentou contrariá-la. “Será que subindo ao Evereste e tornando-me a primeira portuguesa a fazê-lo vou conseguir reerguer a Fundação?” Treinou um ano e, às 9.13 horas de 21 de maio de 2013, conseguiu. “Foi um dos momentos mais tristes que tive”. Sem holofotes, suspendeu a Fundação. “Durante 8 anos tinha apoiado 600 crianças 24 horas por dia. Foram para a rua. Já só consegui apoiar 50 pessoas nesse ano”.

Baixar os braços é um conceito que Maria desconhece. Desafiaram-na a correr sete maratonas em sete dias, em sete continentes. Nos meses de treino, corridas de madrugada, ultramaratonas em semanas e continentes diferentes, maratonas seguidas no mesmo sítio, a publicidade rendeu-lhe 51 mil dólares e dois recordes do Guinness. Em fevereiro, no desafio 777, teve calor e frio e inchaço nas pernas devido ao excesso de voos e à falta de descanso e angariou, enquanto durou (11 dias em vez de sete, o vento trocou-lhe as voltas na ida para a Antártida), 25 mil dólares, 20 bolsas de estudo e mais um Guinness. Gastara 14 mil dólares. Recuperou 200 filhos. Mas precisa de 250 mil dólares por ano, porque cada filho é uma família, uma renda, alimentação, sabonete, roupa, funerais também.

“As pessoas perguntam-me muito qual foi a corrida mais difícil. É a humanitária”. Educar uma criança leva 13 anos e a filha mais nova de Maria tem cinco e ainda não se sentou nos bancos da escola. “Nas maratonas cheguei à meta, havia um fim”. A de Dhaka começou há dez anos. “E vai levarme no mínimo mais 13…”

E filhos próprios? Maria tem o ar sisudo das preocupações. Quando sorri, parece ter de interromper uma fixação. A graça solta-se como o avanço dos esquilos, efémera. Mas aqui faz-se riso. Quando levou Saul, o companheiro, a Dhaka, ele foi literalmente “interrogado”. Havia que apurar as intenções de um homem na vida de Maria. E só teve bênção uma semana depois: podiam casar, mas não ter filhos.

Ivete Carneiro

maria696

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