“Algum dia eu vi paisagem?”

Fomos à Peneda aprender a correr com tempo. E conhecemos Arlindo e Amélia e Tone e Mauro e João e… E, com Lucinda, vimos paisagens e vestimos cabeças de bois. Trail aventura é fugir das pressão das provas. E ver o que há para lá da A3…

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“Quê? Aquela bez que m’aparceram aí todos arrefecidos? O Carlos Sá estaba fresco, inda foi lá baixo ber da carrinha. Agora bocês num saíam de bolta da fogueira!” A história cai quase do nada, ainda a manhã ia a pouco mais de início. Arlindo sobe o lajeado do caminho maior da Branda de Bosgalinhas, esse sítio onde o Inverno é de silêncio e os dias acontecem a horas marcadas, quando o homem sobe a amanhar vidas vindo da inverneira só um pouco menos agreste. As estações na Serra da Peneda passam-se assim: uma em riba, outra em baixo, não há cá meios termos.

Arlindo traz botas quentes e dois fardos de palha que deixa cair no granito mal reconhece João, esse que um dia lhe entrou lar adentro feito rebuçado – “foi a única vez que usei uma manta térmica” – todo arrefecido. Ficaram assim, de laços apertados. Depois disso, Arlindo esperou por ele e mais uns quantos com presunto e sopa e pão e vinho na mesa. Atrasaram-se, a corrida de montanha faz disto, atrasa as gentes. Quando chegaram, raspanete. A comida estava arrefecida.

Nós que tínhamos parado nove quilómetros depois de arrancar, domingo, de outra branda, às já longínquas 7:30 da manhã, acabáramos ali mesmo de aquecer. “O que quer dizer Bosgalinhas? Bá, num sei, foi o nome que l’deram!” Horas mais tarde, descobrimos que Bosgalinhas chega a ser uma irmandade de um grupo de doidos arrefecidos a quem nada melhor parece do que se encabritar monte acima abaixo nos dias em que as brandas estão de silêncio pois que são dias de inverno. Como este grupo, trazido ao Parque Nacional da Peneda Gerês, na banda da Peneda, durante um fim de semana de trail aventura.

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A ideia foi da Outside, que se dedica a oferecer programas de atividades ao ar livre longe do stress das competições. Domingo foi o dia em que quase todos andaram a atravessar a ponte 25 de Abril, ou a baía de Vigo, atrás de 21 km cronometrados. Na Peneda, foram 17 com todo o prazer do mundo. No dia anterior tinham sido 30, com incursões ao Soajo, numa amálgama de serranias perfeitas que cabem, todas diferentes, sob o chapéu do Gerês. A Suíça portuguesa, não tenhamos pudor, que diabo, que aquilo é um paraíso a 360 graus.

Arlindo é apenas uma parte inesperada do programa. Amélia do Sistelo foi outra, sisuda na desconfiança de quem olha para a bizarria de dentadura agarrada ao pão com chouriço oferecido pelo presidente da junta. Serviu-nos café quente e respostas em modo de pergunta, ao cabo de 20 km de uma dureza granítica que arrancara das Portas do Mezio (o Gerês é um festival de lugares, ponto final). Outra ainda (inesperada) foi a vaca (“é toura, menina”) que se atoleimou com os garridos que se lhe cruzaram no trilho estreito ainda antes do Sistelo.

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É precisamente isto, o tempo de parar, ajudar o dono do gado a arrumá-lo, tirar uma fotografia, brincar com os fardos de Arlindo e por aí adiante que estas trail aventuras propõem. Isso e mostrarem aos curiosos o mundo que há para lá da auto-estrada número três. “A Branda de Aveleira é pouco conhecida dos portugueses, muito até dos nortenhos. Temos no grupo pessoas do Porto que nunca ouviram falar da Branda da Aveleira, algumas nem sequer estiveram na Peneda”. João Cruz é o João amigo de Arlindo. Ultramaratonista de Viana sem prisão ao currículo, está ali no quintal de treinos. E por isso foi um dos escolhidos pela Outside para desenhar os trilhos descansados do fim de semana. Aos que precisam (nós…) ensina técnicas de uso de bastões, de uso da força, de uso de coragem, de uso da cabeça. E guia. Atrás, Rui Maia fecha, ou avança, contando histórias de vidas a correr nas montanhas, de vidas despegadas, longe da semana de empregos bancários, farmacêuticos, docentes, o que for caso.

Pelo meio – terá andado na frente, tivemos a sorte de apanhá-lo na cauda – António Guerra, o Tone, é o zelador das mariolas. Redesenha as que o tempo erodiu, transporta as que a falta de saber plantou no meio do trilho, as mariolas são os segredos mais bem guardados da pastorícia de antanho, são o segredo mais bem guardado de quem ousa ir trilho adiante, sem as marcações e a pressão do tempo que implicam uma meta, lá no fim dos 30 km. Tone é isto, o discreto alinhador de montinhos de pedras, o corredor que não sobe aos pódios que são dele, porque se está nas tintas para medalhas, porque o troféu é aquele rebento de árvore que vai acarinhado para crescer lá em casa ou aquela pedrinha de granito com tanta percentagem de mica que nos encandeia a íris. Ou esse é o troféu de João.

O troféu de Mauro Gonçalves será varrer os desgraçados que se aventuram em trail aventuras sem saber muito bem onde se aventuraram. É o varredor mor das provas, esse que não compete porque ajuda os outros a competir com eles mesmos, chegando ao fim. É bom no que faz, Mauro. Muito bom. Está connosco no dia de Arlindo, na subida à majestade cinza da Peneda, na gestão do ritmo cardíaco e no aviso quanto à descida, violenta, alucinante, imparável até ao santuário que descansa sob as águas que caem do Penedo da Meadinha, esse onde as moças casadoiras iam a atirar pedras a ver se acertavam no granito e não na água, que era para casarem (secou, a lagoa, meninos deste mundo, afastai de lá as donzelas…).

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Lendas. Horizontes que não cabem na vista. O cozido de Arlindo. “É a primeira vez que olho para uma montanha”. Lucinda Sousa, ultramaratonista e uma das glórias da corrida portuguesa no feminino, terminou há dias a mítica Transgrancanaria (117 km na ilha espanhola de Gran Canaria) em sétimo lugar. Fez pódio no escalão das mulheres de 40. Parece um saltão Peneda abaixo. “Em competição, gosto de ir sempre a calcular, a prever, a estudar onde vou pôr o pé. Analiso tudo, aquele metro quadrado à minha volta. Adoro. Paisagem? Zero! Algum dia eu vi paisagem?” Está em êxtase a olhar o Gerês. Parada. À espera dos últimos. Confessa que cansa mais do que seguir o ritmo dela. É pior? Nunca. Parece quase uma criança, escondida atrás da caveira de uma toura, em riso perdido, ela que as ensina, às crianças, a fazerem desporto. Já decidiu onde vai passar fins de semana, a treinar e a brincar com os dois filhos. “O parque tem condições para ela treinar, tem desníveis de dimensão que só outro lugar tem, a Serra da Estrela”, diz João. Soma casarios e gente a viver dentro, acrescentaríamos nós. E a verdade é que juntar atletas de topo ao pelotão é do mais animador que pode haver. Para o pelotão, entenda-se.

“A aposta passa por redefinir necessidades que o pelotão do trail tem. Há quem goste da vertente competitiva, mas vir sem compromisso, munido de uma máquina fotográfica, de uma mochila, aproveitar as condições que as aldeias têm e centrar-se aqui na Branda da Aveleira, acho que tem tudo para vencer”. João Cruz dixit. O trail aventura estreou-se bem e vai fixar-se ali, com datas ainda a definir (a Outside também não quer interferir com grandes competições), mas com azimutes apontados a Maio. E à Branda da Aveleira, que tem 13 casas para oferecer, a vista aberta sobre um vale sem explicação possível e o restaurante acabado de abrir de Elisabete e Agostinho Alves e do seu pequeno Gonçalo. Eles são dos visionários das aldeias de Melgaço. Havia 80 pastores a pastorear entre Gave e a Aveleira, uma casa e menos de uma mão cheia de cabeças de gado cada. Agora são três. Com manadas. As casas dos dias mais quentes não servem, Agostinho olhou-as e percebeu a beleza da paisagem. Convenceu a Europa e as autoridades e meia dúzia de loucos. A Aveleira renasceu e tem gente verdadeira a acolher-nos, a partilhar a dureza das manhãs de madrugadas frias, das noites longas, a beleza das calças novas e do espumante de Alvarinho.

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“Estes locais são únicos em Portugal, na Europa e no mundo. Temos a convicção que as pessoas vão voltar e gostaram desta vertente do lazer no trail running. É para repetir e com parcerias noutros locais do parque, porque há zonas na Peneda-Gerês com algumas limitações para realizar atividades e temos de negociar passagens. Serão travessias ou atividades de fim de semana”, diz-nos José Bóia, mentor da Outside. E, a prazo, quer trazer ali grupos de trabalhadores de empresas, em iniciativas de promoção do bem estar e da motivação.

Corremos. E também caminhámos. Muito. Sofremos (os da frente só sofreram a esperar…) nos trilhos muito técnicos, em subidas prolongadas ou descidas a pique, salvos pela ausência de humidade a secar os musgos. Foram 47 km em dois dias, 1500 metros de desnível positivo num dia, 600 no outro. Enchemos a alma, acima de tudo. De ar puro. De uma paisagem impossível de narrar. De ensinamentos. Como se faz, com que material, olhos postos lá adiante. Parte do grupo segue para o Monte Branco, em Julho, para fazer em quatro dias aquilo que os da frente fazem em 40 e poucas horas no ultra trail que é a meca mundial da corrida de montanha. Esses algum dia verão paisagem? Zero. Diz Lucinda.

Ivete Carneiro

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6 comentários

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  • Rui Vicente Dias

    28.3.2015

    Bom dia, parabens pela fantastica descrição.Contagiado, gostariamos de realizar uma jornada de btt nesse paraíso, precisamos de reforço alimentar no meio da joranada.Por favor podem dizer onde é, caso possamos desfrutar dessa iguaria, o cozido do Arlindo?Obrigado

    • ivete

      29.3.2015

      Boa tarde Rui. O cozido de Arlindo é um caso de amigos de longa data. Mas ali bem perto da Branda de Bosgalinhas há outra branda onde existe um restaurante. Ambas pertencem à aldeia da Gavieira.

  • Mauro Gonçalves

    24.3.2015

    “Fomos à Peneda aprender a correr com tempo.” Relato maravilhoso de um fim-de-semana extraordinário, num local paradisíaco com gente fantástica.

  • Sergio Pereira

    24.3.2015

    Fantástico relato de um fim de semana deslumbrante! É a outra face do trail, como diz a Lucinda na competição nada se vê! Aqui tudo se viu, tudo se respirou tudo se viveu! Obrigado pela companhia a todos os “amigos” do trail.

  • Rui Barbosa

    24.3.2015

    Excelente texto, relata bem esta forma diferente de fazer trail! Quero mais!

  • João Cruz

    24.3.2015

    Justa homenagem às gentes, locais e ao Sr Arlindo. Lindo.