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Correr com a diabetes

São 23 horas e termina um treininho de convívio que meteu rampas e escadas e o casco histórico do Porto. Sérgio Moreira vai ao bolso de trás do cinto que usa sempre que sai para correr. Em menos de um minuto, pica o dedo e encosta uma pequena máquina à gota de sangue. Estava a precisar de comer, ora bem. Sérgio é diabético. E é a prova de que a diabetes não é uma enfermidade.

Tinha 31 anos quando, num repente, perdeu 11 kg, ele que nem sequer era forte. Estranhou. Dois meses depois, estava a tomar insulina e a aprender um gesto que o acompanhará toda a vida. Era dia 24 de agosto de 2011 e o diagnóstico apontava diabetes tipo 1. Significa que o pâncreas de Sérgio deixou de produzir insulina. Na família, só havia casos de tipo 2, em que um comprimido ajuda o pâncreas a trabalhar. No caso dele, nada.

Sérgio não atirou a toalha ao chão. Sempre fizera exercício, coisas da bola e da escola e dos clubinhos. Correr é que nunca. “Cansa”. Um ano depois, aventurava-se nos 10km da Corrida do Pai, no Porto – é daquelas que tem essa coisa de meter o bicho das sapatilhas em quem experimenta… – e depois, “é aquela velha máxima”, 10, 20,30, 50, três dígitos. Sim, três, cento e coiso. E a vez que desistiu de um cento e coiso, foi porque se lhe apagou o raio do frontal, ali, bem de noite, a 11km dos 106km da meta.

E como é que um diabético faz semelhante? “Tenho conseguido controlar perfeitamente as medições, durante as provas”. Os sinais de hipoglicémia incluem cãibras, tonturas, suores, ou seja, praticamente o mesmo que sente um atleta não diabético quando se aventura numa corrida dura. “Eu não espero pelos sinais. Se meia em meia hora faço um controlo glicémico para perceber se tenho que comer, se posso correr até ao abastecimento. Prefiro picar mais vezes o dedo do que estar a adiar e entrar em hipoglicémia.”

Aconteceu-lhe uma vez, em Óbidos. Parou a meio dos 50 km. “Não consegui reverter a baixa de açúcar. Por bom senso decidi desistir, porque podia ser um risco para a saúde”. É para saber tomar estas decisões que tem o apoio do endocrinologista e da nutricionista, com quem prepara as provas com semanas de antecedência. O resto é a tranquilidade que  lhe dão os pacotinhos de açúcar do café que tem sempre no bolso, o sorriso de Marlene que o espera um pouco por todo o lado, o projeto que leva no peito, em forma de O. O “Blue O” dos atletas diabéticos. Um diabético não pode fazer exercício? “Deve!”

Ivete Carneiro 

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