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“Um cântico de heróis que resistem”

Há tanto para lá do correr numa prova de trilhos. Há meses, dias, horas de labor. Há infinitos de entrega a uma causa. Há todos aqueles que percorrem os trilhos antes de nós, as vezes que forem necessárias, para garantirem que só tenhamos que fruí-los. Há amizade. É tudo isto que Rui Pinho nos traz desta vez, sempre com mestria e, agora, com nomes, a que juntámos as imagens de Miro Cerqueira, esse outro homem dos montes. Obrigada por nos levarem aos Trilhos do Paleozóico, nós que não pudemos estar lá.

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Há uma ideia generalizada segundo a qual basta um grupo de amigos e uma montanha para se fazer trail. Não deixa de ser verdade, se deixarmos de parte a alimentação, a marcação de percursos (para quem se perde e não saiba usar GPS) e sua limpeza, a cronometragem  e as classificações. Estas são características das provas. Mas trail em prova também não deixa de ser uma grande reunião de amigos.

Os Trilhos do Paleozóico são uma grande reunião de amigos, vindos de vários pontos do país e além-fronteiras, que vão ali, tão perto do Porto, mergulhar no que o trail tem de melhor. Percurso fantástico, desenhado pelos discípulos do “Pai do Trail” em Portugal – o José Moutinho, pois claro –, e que nos transportam a mente para bem mais longe do que os 15 km que nos separam da Invicta. Serpenteados em cumeadas com a urbe no horizonte, subidas por margens de ribeiros onde o sol pouco brilha e o verde é rei, e os cada vez mais aprimorados trilhos, que já se tornaram campo de treinos dos portuenses. A rematar, o já famoso elevador, risca ao meio do Monte de Santa Justa, visível desde muito cedo de qualquer ponto mais elevado do percurso, que nos refreia o ânimo e faz guardar forças para aquele calvário. O Luís Pereira e o Asdrúbal Freitas, obreiros destes traços sarrabiscados nas Serras de Pias, Santa Justa e Castiçal, tornam-se discípulos de renome na peugada do mestre. Dureza, beleza surpreendente, segurança e diversão. A passagem pelo Rio Ferreira, numa improvisada ponte de cordas, tem um toque selvagem único, que nos faz parar e querer ficar por ali, em crioterapia, ao som da rápida corrente a bater nas rochas. Lindo percurso, excelente logística (abastecimentos, banhos e marcações), bela prova, que justifica que as inscrições esgotem cada vez mais rapidamente.

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Como um belo percurso não é suficiente para fazer uma bela prova, juntaram-lhe um monte de gente boa. A Flor Madureira lidera um pelotão de voluntários que faz desta uma prova de excelência em simpatia. Com sorrisos, palavras de conforto e alento, e sempre disponíveis para o atleta, são característica vincada de um trail para amigos. A Marlene, a Cristina, a Dulce, o Paulo, o Vítor, o Cidálio, o Bruno, o Carlos – o Natividade, que com o sininho no alto do elevador garantiu um poderoso reboque para muitos de nós –, o Madureira, o Nunes,o Isaac, a Sara, a Naná, o José, o Altino, o António, a Celina, e tantos outros que injustamente não indico aqui, são atestados de qualidade e simpatia à prova de cansaço de quem passa ali horas à espera de todos nós. A acrescentar a todos estes os atletas vassoura das diversas provas, que têm a nobre missão de muitas vezes apadrinhar estreias, e os atletas marcadores, que manhã cedo partem rumo ao percurso para se certificarem que nada falha, e que as marcações vão estar bem visíveis para que ninguém se perca. O Catarino, o Diogo, o Marco, o Bomtempo, o, aqui também, Natividade, vocês fizeram um excelente trabalho. Tudo impecavelmente marcado.

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Como dizia o speaker de serviço nos Trilhos dos Pequeninos, no sábado, em Couce, “uma característica do trail é que ninguém fica para trás; muitas vezes temos que nos unir e puxar por um dos que fraqueja e fazer da união a força que o leva até à meta”. O Catarino disse isto quando a Isabel, uma jovem atleta, caminhava, a muito custo, para o final dos 1900 metros do percurso do trail júnior. Todos tinham terminado uns minutos antes e todos cresceram muito naquele minuto de aplauso que trouxe a jovem em lágrimas até à meta. Um momento emocionante em Couce, e que todos nós revivemos na intensa meta de Valongo, com os gritos de incentivo da, sempre única, Ana Luísa e os aplausos dos que vão ficando ali até que chegue o último resistente.

Que me perdoem os da frente, mas a cauda do pelotão é um hino à resistência, um cântico de heróis que resistem e que chegam em exuberante celebração. Por esses ninguém puxa. Não há estádio em ovação. Há um amigo no trilho – alguns que se fazem mesmo ali, no trilho –, uma voz de alento num abastecimento, um esgar de força que contorna o tempo limite. Há gente que resiste. Todos resistimos. Uns resistem em prova, outros nos abastecimentos, outros num qualquer controlo, de máquina fotográfica em punho para captar mais um momento. Outros na meta. Gente boa. Tanta gente boa no trail. E tanta gente boa se juntou em Valongo, para fazer desta coisa boa que foram os Trilhos do Paleozóico mais uma reunião de gente boa, que nos deixa sempre saudade e vontade de regressar.

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Rui Pinho

Fotos: Miro Cerqueira

1 comentário

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  • Joao Domingues

    20.3.2015

    Parabens pela reportagem! Comecei nos trails à pouco mais de 1 ano e fiquei amigo de muitos dos nomes acima descritos. Pessoas fantasticas.
    Conheci a Ana Luisa à 1 ano quando ia em grande dificuldade depois de passar a lagoa artificial naquela paisagem de outro mundo onde se retiram as placas de xisto. a Ana Luisa acompanhou-me até ao fim depois de pensar desistir. Este ano retribui-lhe esse momento e fizemos os trilhos juntos durante pouco mais de 4 horas. Depois temos o grande Miro Cerqueira de quem tenho o privilegio de ter algumas fotos na parede de casa tiradas por ele. O trail running e todo o ambiente à sua volta são do melhor que pode haver. um abraço. João Domingues