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Maraturista em Vila de Rei

Quando vemos Susana Brás Santos percorrer um trilho, pensamos em borboletas. Ela voa, sem tocar na montanha que tanto ama, ela, engenheira citadina. E voa a um ritmo poético, pueril, olhos rasgados no sorriso das crianças soltas ao sol. Voa com tempo para olhar à volta. Para parar e pensar poesia. Convidámos Susana a enriquecer o JN Running. Ei-la, em Vila de Rei a voar até de noite.

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Há dois anos consegui o meu primeiro pódio na classificação geral – terceiro lugar nos 60+ em Vila de Rei. Nada de “hip hip hurrays”, por favor. Éramos três senhoras na prova de maior distância. Uma vitória anunciada, portanto.

Foi também há dois anos que conheci o Paulo Garcia, um dos principais motores da Organização Horizontes, e quem me deu a conhecer o conceito de “maraturista” (adaptação de maratonista), o qual não poderá encontrar melhor personificação do que eu própria. Sim, perdoem-me a imodéstia, mas acredito que sou uma verdadeira turista na montanha. Maraturista, porque sempre que posso e consigo, corro um bocadito.

Sábado foi tempo de voltar ao Picoto da Milriça. O “meiomaismeionãohá” de Portugal Continental. Se desenhassem uma cruz sobre o nosso País, o cruzamento seria o centro geodésico, mais coisa, menos coisa. Esse centro fica em Vila de Rei. Antes de lá chegar percorri 3 km. Depois, e para chegar à meta, mais 64 km. Estou certa que nenhum GPS, Google Maps ou qualquer outra tecnologia conhece este percurso e o oferece como alternativa “otimizada” aos seus utilizadores, para regressar ao ponto de partida. Nestas coisas da montanha, o léxico tem muitas particularidades.

Todos estarão recordados da grande prosa que nos escreveu aqui o Rui Pinho, há precisamente uma semana, depois da sua aventura dos 118 km no Sicó. Se dúvidas ainda tivesse quanto ao sentido das suas palavras, ontem tê-las-ia dissipado. Amei e odiei o trail. Morri e renasci dezenas de vezes. Viajei ao meu interior, com todas as revelações mais ou menos boas de mim mesma. Vivi a descoberta de reservas de energia que desconhecia existirem. Ouvi a palavra amiga, que por vezes me acariciou como mimo e noutras me fez querer exclamar “deixa-me em paz”. Como nos contava o Rui, somos nós no nosso mundo. Vamos de crianças a velhos num ápice. E fui tudo isso. A criança que, contrariada, chorava, para depois rir vigorosamente, resultado de um mergulho na cascata do Penedo Furado. Mas sobretudo fui uma velhinha, procurando forças onde já não existiam, como se repente os meus 39 anos virassem 89. E dos 89 renasci para os 20, debaixo de um céu estrelado e lua cheia, um teto em forma de mar de estrelas, onde parece que mergulhava. Vontade de desligar a luz do frontal para melhor o apreciar.

O prenúncio de Primavera no início da semana prometia um sábado fantástico. As promessas de São Pedro não saíram defraudadas – o protetor solar teve mesmo que sair da gaveta. O buff na cabeça teve que ser rapidamente substituído pelo boné, para proteger o rosto já de si franzido, reação à contrariedade imposta ao resto do corpo, demasiado exigente para o que as pernas conseguiam oferecer.

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Depois de atingir o Picoto da Milriça aos 3 km de prova, veio a visão daquilo que sabia que iria encontrar cerca de 35 km adiante. Antes de lá chegar seria ainda presenteada com uns deliciosos nacos de melão no Aivado e, alguns quilómetros depois, nas Trutas, gomos de tomate com sal, o melhor hidratante natural que conheço. Mas a visão da cascata continuava a pairar, avolumando-se quando começaram a surgir os primeiros riachos e cursos de água, onde alegremente molhava os pés, mergulhava as pernas e refrescava o rosto. Entro finalmente na zona das Bufareiras, que oferece um enquadramento maciço rochoso extraordinário, pontuado de diversas cascatas. E ali estava ela. A cascata do Penedo Furado. A última que antecedia a subida em direção à praia fluvial com o mesmo nome.

“São só 5 minutos, prometo”, disse eu ao Rui. Há dois anos ainda me havia descalçado e retirado as meias. No sábado já não havia tempo para esses detalhes. Como vinha com o corpo quente, mergulhei calmamente as pernas dentro daquela água cristalina e gelada. O meu assistente de reportagem nem um dedo pôs na água. Tirou a mochila e dorsal, e tal como eu previa, lançou-se num mergulho olímpico naquela lagoa azul. Com tamanho incentivo, mais todos os salpicos que me molharam, entre 50 gritos que se terão feito ouvir por todo o vale do Zêzere, mergulhei também e ofereci ao meu corpo uma revigorante sessão de crioterapia. A alma essa, encheu-se com o graal que buscava desde o km 1.

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Não fosse o sentimento de necessidade de concluir toda a jornada, confesso que poderia ter terminado a minha aventura por ali. Queria aquele mergulho. Dei o mergulho. Estava feliz. Mas nestas coisas da montanha, por mais que o corpo nos diga que quer descansar, há um qualquer desafio da mente que nos empurra para diante e que teima em dizer que a aventura deve terminar na meta. Mesmo que custe um pedacinho. Ou mais que um pedacinho.

E assim foi. Do Penedo Furado a Água Formosa e às suas casas de xisto, serpenteamos ribeiros que ecoavam pelos vales. Nas margens viam-se antigas minas de exploração de ouro (conheiras) e evidentes vestígios de povoamentos de outrora. Quais garimpeiros, descobrimos ouro ao chegarmos ao abastecimento dentro do tempo limite, devidamente recompensados por uma saborosa sopa de feijão. Uma taça não chegou. Duas foram precisas para recarregar as pilhas, já há muito com o “red alert” e ameaçando vigorosamente o “power off”.

48 km estavam feitos. Seguimos para os 19 km que faltavam. Chegámos a Poios, último abastecimento, de frontal ligado, e rapidamente nos pusemos a caminho para o Trilho das Cascatas, ouvindo o som relaxante da água a precipitar-se de poço em poço. A grande escarpa lá estava. Não saiu do lugar em dois anos, mas está agora dotada de cordas para se escalar em maior segurança. Um pouco acima, avistamos a EN 2 e um carro abranda vendo as luzes dos nossos frontais. “Força”, gritam lá do alto, e com mais forças me sinto para os 2 km que nos faltam.

“Está mesmo quase”, penso. Recuo dois anos e imagino a Inês e o Diogo a brincar junto à linha da meta esperando orgulhosamente a mãe, a derradeira de três atletas femininas.

Um dia depois, sinto o corpo mal tratado, mas o coração cheio. A visão romancista do texto do Rui relativamente às aventuras na montanha justifica tudo o que vivemos e a procura de o reviver. Hoje dei comigo a pensar numa visão menos romanceada. Estou para a montanha como os homens anafados e desengonçados dos jogos “solteiros e casados” de domingo estão para o futebol. Sabem que estão mal preparados fisicamente, vão castigar o corpo durante aquela hora de jogo com os amigos, sofrerão um pouco, mas no final… no final estarão muito mais satisfeitos, prontos para enfrentar a semana e ansiando pelo empeno do fim-de-semana seguinte.

A versão mais científica deste fenómeno é a que nos dá o Victor Hugo Teixeira, no seu amplamente divulgado vídeo youtube, sobre nutrição no desporto. O desporto não é saudável. Desidrata. Inflama. Oxida. A recuperação do exercício, essa sim, é saudável e torna-nos mais fortes. E digam-me então – queremos ou não queremos ser fortes?

Susana Brás Santos

Fotos: Paulo César Borges

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