Trail Camp: a Estrela não aceita um não…

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São sete da manhã e está um frio da cor do sol a colorir um ar de neve. O ar de neve tem cor, pode ter. E pode ir do rosa ao laranja, do azul estúpido de claro ao mais negro dos brancos, aquele das cegueiras como imaginamos serem as que José Saramago nos descreve com mestria. São sete da manhã. Se calhar, admitimos, será um pouco mais tarde. Talvez nove. Ou mais. Às sete partiram os outros, quando o ar ainda era laranja rosado. Agora, às nossas sete, está daquele azul quando lhe dá a luz. Ali no Vale Glaciar do Zézere, ligeiramente acima de Manteigas, do lado onde a encosta ainda é madrugada, está breu. Parece-nos. Dizem-nos que, dali, é subir. E é logo ali que dizemos que não.

Este não – os nãos que passam pela cabeça de todos quantos empreendem a luta contra a natureza – seria contrariado à custa de mau feitio, quando não, fugazmente, de lágrimas, pois. Porque foi para contrariar estes nãos que fomos todos para ali, encarreirarmo-nos atrás dele. Ele, o mestre que também chora. Ele é Armando Teixeira, o ultra-corredor (runner nem soa bem, ali no Portugal mais puro, no Portugal mais alto, no Portugal mais duro) que convida, de quando em vez, quem queira a seguir-lhe os passos nos trilhos que tornou dele. “Sinto que faço parte desta serra”. E nós, os outros, os que seguem, a fungar o mimo das sete da manhã, a maldizer a crueza da falta de oxigénio da altitude, éramos os que achavam (parte de nós, pelo menos) que isto de treinar não é correr para uma meta e, por conseguinte, não custa.

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O Snow Trail Camp do passado fim de semana começou com um passeio – e logo o primeiro não – e prosseguiu com uma lição: Armando contou-nos que, quando descia para Courmayeur, em setembro passado, com 300 km e quatro dias nas pernas, sentiu lágrimas no rosto. Aos pés dele estava a meta do Tor des géants, a gigante volta ao Vale d’Aosta, nos Alpes italianos. Armando dissera não, algumas vezes, durante aqueles quatro dias. Porque o objetivo de arrumar com os Alpes e quase 25 mil metros de desnível positivo em 80 horas morreu cedo. Disse não e até perguntou, ao telefone, para Portugal, se era mesmo não que devia dizer. Responderam-lhe, na dor de vê-lo com dor, que sim, era não. Mas não. Não seria não. Quem o acompanhava na aventura não permitiu, por muito que a alucinação do cansaço o fizesse fazer feitos pouco famosos. Como pedir um quarto para dormir e sair a correr ao cabo de dez minutos. Como berrar. Como chorar. A meta, quatro dias de esforço depois, estava ali. Para lá dela, uma torrada e uma meia de leite. Foi a motivação, a última que alimentou para continuar em tom afirmativo a lutar por um sonho. E o sonho já não era bater um recorde que nem o seria, era uma linha imaginária como qualquer outra numa experiência inédita. O sonho era chegar ao fim. Armando chorou, correu, ergueu as Quinas e voltou a chorar. E quase nos pôs ali, nós, mimalhos, a baixar os olhos de vergonha por sermos tão pequeninos. Olhámos de frente e batemos palmas, ignorando os músculos doridos do desnível da manhã.

Resiliência, chamemos-lhe assim. Motivação. Os genes – 28 mil – determinam ou não 50% da capacidade de sermos atletas. O resto foi o que nos juntou ali, no campo de treino de trilhos na neve. Fernando Ferreira, tenente-coronel do Exército convidado a fazer-nos ver o trail de outra forma, até Sun Tzu foi buscar para nos mostrar que está tudo na nossa cabeça. A arte da guerra. Daria vontade de erguer os ombros. Pois que foi mesmo só a arte da guerra, o prato de vitela em cozedura lenta que aguardava no Vale do Rossim de Júlio Barbas, a glória das palmas das crianças que ficaram nos yurts do Ecoresort, foi só esse estratagema que nos devolveu à zona de conforto no domingo já tarde dentro.

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Depois daquelas nossas sete da manhã – nossa dos lentos – que seriam até mais do que nove, agora concedemos, escalámos o Glaciar. Torcemos os tornozelos nos tufos da Nave de Santo António, gelamos os dedos dos pés nos fios de água que se escondiam sob a neve. Percorremos, quase de gatas, um Trilho do Major soalheiro, olhando o brilho das ossadas de um carro que foi morrer ali, há anos. Olhámos a terrível nuvem, a Torre a desaparecer, a incredulidade. E atravessámos, toros de gelo no lugar das coxas, pingo no nariz e olhos rasos, rajadas de vento negativo, sob o olhar alucinado de quem via a neve por detrás dos vidros de muitos, tantos, imensos carros. Corremos para aquecer. Para não cair. Dissemos não, enquanto éramos varridos pela humidade gelada quando tentávamos trincar tomate com pedras de sal na carrinha aberta feita posto de abastecimento. E olhámos para o lado. Para a neve. Para o relógio. Para o que ficara para trás: 900 metros de elevação palmilhada com demasiado custo para um não.

Vitela. A arte da guerra. Armando, em comunicação rádio com Miguel Catarino, co-organizador da lição, informa que eles, os bravos, estavam a aproximar-se. Perderam-se. “Não contávamos com estas condições. Posso dizer que também passei frio e assumo que as pessoas foram mesmo combatentes a sério”. Vitela. Fernando seguia ali, a sorrir motivação. Catarino cantava hinos aos lençóis e orientava-se pelo GPS, não havia referência possível, a neve fazia-se colchão e travão, o frio passou a ser psíquico. Passou, simplesmente. Até à meta feita de mãos de criança, de mãos dadas, de ritmos militares cantados, Sun Tzu em forma de sapatilha encharcada, rosto cozido pelo gelo, brilho nos olhos. Foi o nosso Tor des Géants. “Uma boa lição do que é a montanha… A montanha pode ser madrasta. O perigo está sempre presente. Mas também não podemos desistir à mínima adversidade. Temos que ter espírito de sacrifício, de luta, de resiliência, porque momentos maus vamos sempre passar”. Foi o que Armando disse ao grupo dos bravos, que liderava. E a si próprio. “Em primeiro lugar tentei motivar-me a mim mesmo, estava com bastante frio e quando se tem à responsabilidade dez ou onze pessoas não é fácil. Temi por mim e temi por eles”. E depois mentiu-lhes. “É só descer”. Não era, mas foi como se…

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E é isso que Armando Teixeira quer com estes campos de treinos, que têm versões a acompanhar as estações do ano: ensinar-nos a perceber que dizer sim é o primeiro passo para pôr o pé na pedra certa numa descida alucinante pela escuridão adentro, como a que se fez no sábado à noite, só porque o jantar era no Sabugueiro, nove quilómetros a pique abaixo do Vale do Rossim. Mostrar-nos que nada é adquirido, nem o sol, e que uma manta térmica pode ser a única coisa que nos salva do peso da natureza, mais ainda ali, terra cujo nome vem delas, das mantas (mantecas, Manteigas). “Com estas condições, o material comum de trail não chega”. Teve de chegar…

Correr sem meta custa aquilo que a montanha determinar que vai custar. Custa tanto quanto enterrar as pernas na neve. Custa tanto quanto a luta contra ventos muito fortes. Custa. Mas vale muito mais do que custa. E mais: vale o gosto de ter percorrido, antes de todos e sem o peso dos prazos de uma prova, muito do percurso do Estrela Grande Trail, a primeira organização competitiva de Armando Teixeira, na qual, depois deste campo, diz ele, a exigência de material será implacável. Acontece de 22 a 24 de Maio, com distâncias de 25 e 85 km, mas sem neve. Essa já ninguém nos tira…

Ivete Carneiro

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2 comentários

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  • Sonia Tubal

    27.2.2015

    Adorei o relato e a experiência compartilhada nestes dias fantásticos de descoberta e aventura…

  • Sérgio Duarte

    26.2.2015

    Gostei muito do relato, apetece-me calçar as sapatilhas e sair a correr por esses montes…