Desafio 777: “Foi das coisas mais duras que fiz”

antartida1.696

“Foi uma das coisas mais duras que alguma vez fiz, levou-me muitos meses de preparação e muito apoio de muita gente. Ajudem-me a torná-la útil.” É com esta simples declaração que a portuguesa Maria Conceição resume o maior desafio que levou a cabo em nome das crianças do Bangladesh. Ela corre por elas, porque sabe que isso traz luz sobre elas e sobre a educação de que precisam para sair da pobreza. Na sexta-feira, completou a sétima maratona de um desafio que implicava correr sete, em sete dias consecutivos e em sete continentes (para os que duvidem, há classificações que divide o mundo em sete). O Desafio 777 acabou por se tornar nm 666 mais 111: o grupo ficou retido em Punta Arenas a aguardar uma aberta para aterrar e correr na Antártida. Completou-se em 11 dias e fez de Maria Conceição a mulher mais rápida a concluir sete vezes a distância em sete continentes. Ao JN Running conta o que mais lhe custou. E fala da inutilidade do feito se não corresponder à recolha de fundos que a levou à aventura. A meta fixada, angariar cerca de 25 mil euros para assegurar escola para 14 crianças, está muito longe de estar cumprida. Quando faltam três dias para terminar, chegou aos 35%.

Como descreveria o esforço que é concluir o 777, bem como aquilo que foi mais desafiante: os voos, a privação do sono, os quilómetros acumulados, a parte mental?

Penso que tudo combinado foi o verdadeiro desafio. Eu sabia que conseguiria correr a distância (7×42 km) porque já o tinha feito antes, como parte do meu treino. Mas tive uma lesão em dezembro e preocupava-me que pudesse reaparecer, o que me deixou bastante nervosa. Os voos foram realmente duros. Os voos longos são sempre difíceis, mas quando tem que se correr uma maratona entre cada um deles tornam-se realmente duros. E cada voo foi ficando mais difícil, com cada vez mais inchaço nos pés e nas pernas.

O que lhe passa pela cabeça enquanto corre? Nos bons e nos maus momentos…

Passo muito tempo a dizer a mim própria que consigo fazer o que estou a fazer e penso nas pessoas que me apoiam e nos meus patrocinadores, que têm expectativas quanto ao meu sucesso. Mas mais do que tudo penso na Fundação e nas crianças. Eu só me meto nisto para ajudá-los a manter-se na escola. É a minha única esperança de conseguir publicitar o trabalho da Fundação e atrair fundos ou donativos. E é isso que me dá a força de que preciso para completar os desafios.

O que é que tem conseguido para a Fundação com estes desafios?

Os desafios trazem-nos publicidade, é algo que as pessoas gostam de ler. O trabalho humanitário no Bangladesh é uma história interessante em si mesma, mas não traz assim tanta publicidade, porque é uma história a longo prazo, enquanto cada novo desafio é uma notícia que nos mantém sob as luzes da ribalta. A nossa Fundação não teria sobrevivido tanto tempo sem os desafios e o suporte financeiro que eles nos trazem.

O que é mais difícil? A luta contra os quilómetros ou a luta para arranjar apoios para a Fundação?

Claramente a luta pelo apoio à solidariedade. Os desafios apenas me tomam sete dias, ou 11 dias, ou uma corrida. O trabalho humanitário e a luta pelo financiamento é constante. O dinheiro que temos dá para as contas atuais. Mas a educação é uma aposta a longo termo, de pelo menos cinco anos por criança, portanto, as faturas continuam a chegar-nos. Se tivermos um ou dois meses com poucos donativos, ficamos sem margem para as contas e temos que duplicar ou triplicar os esforços de angariação de fundos. As pessoas pensam que estamos financeiramente seguros, mas na verdade é uma situação muito instável. Não conseguimos prever o mês seguinte porque não temos nenhuma fonte de rendimento segura ou regular. Esperamos melhorar este estado de coisas encontrando parceiros doadores regulares, através do apadrinhamento de crianças ou do apoio a programas envolvendo adultos.

Ivete Carneiro

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