E se a proposta fosse correr sem competir?

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Era uma vez um quase engenheiro químico que, a meio de sê-lo, percebeu que o mundo era fora dos números que lhe enchiam os calhamaços. Tinha 24 anos. Trocou as voltas às decisões e recomeçou de novo, na educação física. E pôs os pés a caminho. Foi a Santiago de bicicleta, escalou os Pirinéus, os Picos da Europa, o Atlas, em Marrocos, os Alpes. E nunca mais largou a vida ao ar livre – a vida “outdoor”.

Chama-se José Bóia e, depois de dois anos na República Checa, onde representou uma marca portuguesa de produtos para montanhismo, regressou e pensou. Pensou que já conhecia o suficiente para se lançar sozinho à aventura. E a aventura foi criar uma agência diferente, com uma certeza em mente: “As pessoas deixaram de explorar o mundo, como faziam em criança”. E outra: há demasiada informação a tolher a cabeça das gentes, incluindo a que traveste o conforto em felicidade. Era novembro de 2013 e nascia a Outside, literalmente lá fora, esse sítio onde a vida é melhor. E propôs-se ajudar quem queira a regressar às origens, a sentirem o mundo e a “terem consciência do seu corpo”, esse que os leva onde os sonhos querem ir.

A Outside começou naturalmente por oferecer programas virados para atividades que arrebatam José: escalada, montanhismo, trekking. Em suma, aventura. E foi aí, nesse envelope, que, em agosto passado, resolveu encaixar o trail. Porque demasiadas pessoas à volta de José começaram a praticá-lo, porque a modalidade está a crescer à velocidade da luz e porque, mais dia menos dia, “as pessoas vão fartar-se de provas com muita gente”. Sem papas na língua. “O mercado está todo vocacionado para a competição, há provas todos os fins de semana, às vezes mais do que uma, e não há oferta sem ser competitiva”. Ora, a vida lá fora pode ser sem cronometragem, sem pórtico na meta, sem o sufoco de um limite horário. A vida lá fora pode ser para desfrutar, simplesmente. E pronto, está criada a ideia de férias de trail, com tempo para parar e tirar fotografias e correr em percursos habitualmente reservados aos ultras. Como o Monte Branco, por exemplo…

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O “Tour du Mont Blanc” é o Ultra trail do Monte Branco (UTMB) em versão pausada: quatro dias para 166 km e 9600 metros de desnível positivo, em vez das estreitas 46 horas de uma prova não só cara como de acesso muito difícil, dada a quantidade de candidatos ultra bem preparados… “Este percurso é muito conhecido pela prova do UTMB, mas convém relembrar que estes trilhos são centenários e usados desde sempre pelos pastores e pela população da região. O UTMB só aproveitou todas as infraestruturas existentes no percurso e transformou-o num evento desportivo. Não é por acaso que a National Geographic considera-o um dos 20 percursos mais icónicos do mundo”. A Outside propõe-no com guias com tarimba e tempo. Essencialmente tempo. Tal como propõe trails curtos em fins de semana no Gerês e como prepara para breve uma semana como a dos Alpes, mas no Atlas, em Marrocos.

Ivete Carneiro

1 comentário

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  • João Cruz

    13.2.2015

    Conceito inovador, num local único. Life is Better Outside.