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A Arrowhead na voz de Carlos Sá e Harvey Lewis

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A Arrowhead 135 foi há duas semanas, uma corrida de 217 km no Minnesotta, com temperaturas médias de 25 graus negativos e em que os participantes têm de carregar, num trenó, tudo aquilo de que precisam. Nela estiveram o português Carlos Sá, na versão de corrida, e o poruguês João Neto, no ciclismo. E estev, também, Harvey Lewis, amigo de Sá, vencedor da Badwater de 2014, a corrdia mais dura por ser a mais quente. No frio, Harvey, que o JN Running conheceu no verão passado, no Porto, ficou em segundo lugar.

Como se ganha uma prova de 135 milhas debaixo de temperaturas de 50 graus, no Vale da Morte, nos EUA, e se faz pódio na prova oposta, na zona que é considerada o congelador da América? Perguntamos a Harvey. E perguntámos-lhe, também, o que mais custa numa ulramaratona de 135 milhas (217 m). E no que se pensa, ao longo de tantas horas.  Falou-nos da “extraordinária beleza natural, perigosa se não se estiver preparado”.

“O mais difícil foi lidar com a privação do sono. A corrida é excecionalmente difícil, não só porque tem 217 km, mas também porque tens que puxar um trenó com todo o material obrigatório. Penso que eu e o Carlos Sá éramos quem tinha os trenós mais pesados no terreno. Podíamos claramente melhorar se nos tornássemos mais eficientes com os nossos trenós. É que, ao contrário das outras ultras, que têm muitos postos de apoio ou podes ter uma equipa a acompanhar-te como na Badwater, nesta corrida estás basicamente tu e a mãe natureza.

A corrida é tão difícil quanto a Badwater, mas depende muito das tuas preferências pessoais. Se não gostas do frio pode tornar-se mais difícil do que a Badwater. Se não gostas de calor esta corrida é mais fácil. Eu senti-me muito mais destruído depois de completar a Badwater, porque os quilómetros na Arrowhead 135 eram mais lentos e feitos na neve. Não puxei tanto pelo meu corpo.

Quando corro penso muito na vida. Penso nas pessoas que me influenciaram. Por vezes sinto desconforto como se estivesse a morrer, apesar de não estar de todo, e aprecio tudo o que a vida me trouxe. Também tenho alturas em que me limito a apreciar o momento e o mundo natural. Aprecio as pessoas na minha vida. E também penso constantemente naquilo que tenho de fazer a seguir (comer, adaptar a roupa, esfregar vaselina, etc.) e na estratégia para a corrida. Encontrar o Carlos Sá no pequeno avião entre Twin Cities e International Falls e treinar para testar o trenó com ele, com o João (Neto) e com o meu amigo americano Tracey Outlaw no dia anterior à corrida são as minha memórias favoritas.

Surpreendeu-me também o mar infindável de pinheiros verdejantes. Não esperava tamanha beleza. Amei correr ao longo do lago gelado que conduz a um encantador albergue na natureza. E disputei o segundo lugar com outro corredor, Jan Kriska, durante horas e horas, acabando por acelerar no final, o que nos deu aquele sentimento de que tínhamos sobrevivido ao lendário Yeti…”

Carlos Sá, do seu lado, deixou na sua página de Facebook um relato pungente do esforço que foi, para ele, a Arrowhead 135. Encarrou-a como um teste à dura travessia da Gronelândia que se prepara para fazer em maio. E foi, admitiu, “das provas mais duras e extremas” que já fez. “Há muito que ouvia falar deste desafio. Tinha agendado a travessia da Gronelândia com o João Neto e esta prova vinha no timing certo para testar material e preparar-me em ambientes de frio extremo”. Depois da prova, que preferiu não concluir por não querer por em risco a Transgrancanária, resume a participação a um esforço extraordinário. “Nem imagino como será andar uma dúzia de dias nestas condições” na Gronelândia, para onde terá que levar material para 12 a 15 dias.

Para a Arrowhead, Carlos Sá levou 15 kg e um trenó que, ao pé do dos habituados, parecia um monstro. Ainda correu muitos quilómetros com Harvey, até se atrasar, a acumular o esforço de parar para se alimentar ao facto de preferir adiá-lo e ficar em carência. Continuou sozinho. “Não se vê nada nem ninguém, a não ser nos postos de controlo”. O resto foi de pura superação, com dores e o jet lag a dar sinais. “Estava a mancar e a arrastar-me, cada vez pior e com dores insuportáveis! O ritmo era de caminhada muito baixa, começava a ver estradas e pessoas em muitos lados, tal era a ansiedade de chegar ao 3º posto, pois já não fazia muito sentido o que ali estava a fazer. Tinha mais duas provas no mês seguinte e provavelmente estava a criar lesões para umas semanas, tais eram as dores nos gémeos, tendões, os pés pareciam-me estar a ficar cheios de bolhas e todos rebentados. Optei por umas sapatilhas para o gelo, com membrana de neoprene, mas as mesmas não são impermeáveis… Andei o tempo todo com os pés ensopados, o que provocou enrugamento da pele e dor intensa nos calcanhares, devido ao movimento instável da neve fofa, horas sem fim…”

Carlos continuou, já com a ideia de parar. “Percebi por que razão apenas 30% termina este desafio brutal. Estamos absolutamente por nossa conta, no meio do nada e esse material que levamos será o nosso refúgio em caso de desgaste ou lesão total. Gosto da superação, mas superação em condições de dignidade, onde podemos progredir a ritmos razoáveis. Se fosse para me arrastar por toda a noite (que tinha acabado por cair novamente) para completar os últimos 35 km, talvez tivesse força mental para tal, mas preferi salvaguardar a minha saúde e estar apto para a Transgrancanária”.

A conclusão de Carlos? Quer voltar!

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