Colin Jackson, o campeão da Wings for Life

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Colin Jackson tem 47 anos. Não parece. Nada. Ri-se. “Deve ser de toda esta corrida…” O britânico foi tricampeão do mundo, vice-campeão olímpico e recordista mundial do 110 metros barreiras durante  11 anos, com uma marca de 12.91 segundos. Correr? Sempre foi um dado adquirido para Colin. Até perceber que não o é. Para ninguém. E que um acidente pode dar cabo de tudo isso. Há quem não possa correr. Ele que ainda pode quer agora pôr o mundo a correr por esses todos que não podem. Conversámos com o diretor global de Wings for Life World Run, uma corrida que vai acontecer em 35 sítios do planeta, incluindo o Porto, à mesma hora do dia 3 de maio, para angariar fundos para a investigação das lesões da espinal-medula. Isto é longo, mas vale a pena conhecer Colin Jackson.

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“Tive muita sorte em ser um corredor de tanto sucesso, sorte por conquistar 25 das mais importantes medalhas olímpicas, do mundo e da Commonwealth. Nesta modalidade é muito difícil devido ao risco de lesões envolvido. Ter uma carreira tão longa – ganhei a minha primeira medalha com 19 anos e ganhei a última aos 36 anos –  foi um grande ponto de partida para mim. Aprendi muito sobre mim próprio, sobre o mundo, por força de ser um viajante por tanto tempo. Adorava atletismo e nunca, enquanto atleta no ativo, pensei que estaria onde estou hoje graças ao atletismo. Foi uma lição que aprendi e que posso agora transmitir a jovens e dizer-lhes: não fechem nenhuma porta, nunca sabem o que vos vai acontecer a seguir, sejam sempre livres e abertos a novas experiências”.

É com a simplicidade de um herói que nos conta o passado, resumindo-o a muito poucos minutos numa conversa de meia hora que dedica à solidariedade, à necessidade de ajudar. À causa. As causas, para Colin, são já um hábito desde que, em 2003, se retirou da competição. “Comecei logo a trabalhar para a BBC, num projeto chamado Sport Relief”. A ideia era angariar dinheiro para a solidariedade, para distribuir por Inglaterra e pelo mundo, em “projetos ligados ao desporto”. Aprendeu mais. Aprendizagem é, de resto, uma palavra recorrente no discurso do atleta. Aprendeu sobre televisão, sobre produção de televisão, sobre organização de eventos. “Eu nunca tinha tido a menor ideia, antes de me retirar, do que implicava montar qualquer evento major”.

Até que se cruzou mais a sério com a Wings for Life. Conhecia-a dos carros de Fórmula 1, de ver o símbolo aqui e ali, em t-shirts. “Mas não sabia realmente o que defendia”. Um dia, encontrou-se com Anita Gerhardter em Londres. A CEO da fundação austríaca pediu-lhe para se envolver na Wings for Life World Run. E explicou-lhe o porquê: é importante angariar dinheiro para a investigação das lesões da espinal-medula, porque a paralisia não está assim tão generalizada que justifique, aos olhos das farmacêuticas, o investimento na manutenção de laboratórios. “E porque na Wings for life acreditarem verdadeiramente que as lesões da espinal-medula podem ser curadas. E que só é preciso dinheiro. E tempo. E quanto mais dinheiro houver, menos dinheiro será preciso, melhores cientistas teremos e mudará as vidas de muitas pessoas”. A fundação n asceu da uniao do campeão motocross Heinz Kinigadner, sujo filho ficou tetraplégico num acidente, e do fundador da Red Bull, Dietrich Mateschitz. Colin Jackson comprou logo a ideia.

“Entendi que a lesão da espinal-medula pode acontecer a qualquer pessoa, em qualquer altura, não discrimina ninguém. Podes ser uma criança, podes ser um idoso, podes ser preto, branco, pode acontecer-te a qualquer altura. E quando acontece é sempre algo para que não estás preparado. E não te afeta apenas a ti, a pessoa que sofreu a lesão, mas sim todas as pessoas à tua volta”.

O atleta para numa história que parece tê-lo marcado particularmente. “Uma mulher ia dar à luz o segundo filho e o médico deu-lhe uma epidural, mas era toxicodependente e aniquilou a espinal-medula. Ela está agora numa cadeira de rodas… Aquela mulher foi dar à luz, deveria ter sido uma coisa boa…”

O trabalho da Wings For Life é esse, tentar fazer com que pessoas como ela possam voltar a caminhar. “Daí o nosso moto ser mesmo ‘Correr por quem não pode’. Eu fui corredor profissional e sempre tive a corrida como um dado adquirido. Agora olha para trás para todos aqueles dias em que achava que era um dado adquirido e percebo os verdadeiros benefícios de correr. Correr pode doer, tudo dói. Mas também pode ter graça e ser libertador. Quando estabeleces um objetivo e fazes algo que nunca pensaste que farias, esse sentimento é tão maravilhoso…” Diz Colin que só lamenta não um bom corredor de fundo. Porque correr é socializar, é conversar, é partilhar. “É ser livre, literalmente livre”.

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A questão era descobrir como dar mais visibilidade à Wings for Life. Usar a corrida era uma ideia, mas teria que ser muito atraente. Uma corrida mundial. “Queríamos fazer algo de diferente e grande! Além disso, este é um problema global, do mundo, não é um problema isolado. Temos laboratórios por todo o mundo a investigar e isto dá-nos a oportunidade de fazer donativos a todos os laboratórios do mundo. Unifica o mundo de uma forma real. E dá oportunidade de competir afastados exatamente pela mesma causa”.

Então foi pensado o inédito: uma corrida sem linha de meta, um percurso que termina virtualmente a 100 km da partida, para dar espaço aos mais rápidos. E uma corrida mundial, com partida simultânea em 35 sítios diferentes. “Estamos em todo o mundo, haverá climas diferentes, condições diferentes para quem aceitar o desafio. Mas isso vai certamente animar as pessoas: estão a competir nesta corrida com pessoas que, nunca sabes, podem estar a correr com 26 graus, ou com 11 graus negativos. Nunca sabes. É uma oportunidade de as pessoas experimentarem algo verdadeiramente diferente”.

Trinta minutos depois, arranca o carro-meta que vai eliminando os corredores à media que os ultrapassa. “Não se preocupem com a velocidade do carro, não será de 50 km/h! Ou acabava tudo em dez minutos! Começamos nos 7 km/h e depois vamos acelerando até um máximo de 35 km/h no final”. No ano passado, o catcher-car não chegou sequer aos 35 km/h. “Corre-se no mínimo uma hora, diria”. Ou caminha-se. Ou acelera-se no início ou só depois dos 30 minutos. Ou estabelece-se uma meta. Três quilómetros? “Great. Ficamos felizes por participarem e apreciarem”. Cinquenta quilómetros? “Great. Os ultrarunners irão muito longe”. Para que conste, no ano passado, foram aos 78 km. “Mas olhe, mesmo com semelhante distância apenas houve 90 – nove zero!!! – metros de diferença do primeiro para o segundo. O primeiro foi na Áustria. O segundo foi no Chile. Quando se vê nos ecrãs é empolgante, porque pode ver-se os catcher-cars aproximarem-se e não se sabe quem vão apanhar primeiro”, conta Colin.

“Tínhamos que fazer com que correr fosse diferente, com que não se parecesse com uma maratona ou com um 10km. Não queríamos um evento em que a distância dita os corredores. Queríamos que fossem os corredores a ditar a sua meta. Se quer apenas ir aos 3 km, vá, o carro apanha-o aos 3 km, tudo bem. E isso é importante, queremos que o evento seja inclusivo, com pessoas em cadeiras de rodas, pessoas que precisam de assistência para avançar, queremos que se sintam muito parte disto. Se organizas um 10k ou uma maratona, essas pessoas não têm capacidade para participar”.

Por cá, a World Run arranca no Palácio de Cristal, sobe à rotunda da Boavista, desce a avenida da Boavista até ao Parque da Cidade, atravessa-o par ir a Matosinhos, ligar ao mar e, daí, seguir junto à agua de regresso ao Douro. Atravessada a Ponte Luís I, o trajeto segue a marginal, rio e mar adiante, até à Torreira (S. Jacinto). “O percurso é magnífico”, diz o atleta, que o percorreu esta semana e acredita que, se alguém de outro país for espreitar o trajeto portuense online (estão lá todos) “vai apaixonar-se, porque é muito pitoresco, entra e sai da cidade, vai junta às praias, atravessa matas… lindo, mesmo!”

E agora a pergunta que importa: como é que eu, correndo a Wings for Life World Run, vou contribuir para a investigação das lesões da espinal-medula? “100% da inscrição – 25 euros em Portugal – vão diretamente para a investigação”. Na primeira edição, conseguiram-se um pouco mais de três milhões de euros só em inscrições. “A maioria dos cientistas de topo gasta a maioria do seu tempo a tentar arranjar dinheiro para a investigação. São cientistas, não são pessoas que devam andar por aí à procura de fundos. A questão é juntar o mais possível, para podermos dar-lhes três anos num laboratório sem terem de pensar onde é que vão arranjar dinheiro para continuar”. E se um microscópio custa 270 mil euros, “estão ver o quão rápido o dinheiro pode ser engolido”.

Este ano, o objetivo é subir a parada. Mais 20 mil participantes do que os 34 mil do ano passado. E ousar querer duplicar o montante angariado. E a garantia é a de que ganhar mundialmente dá prémio: uma volta ao mundo em 30 dias, a expensas da Red Bull, que é um dos braços armados da Wings For Life. Quem vencer localmente poderá, para o ano, escolher ir correr (e conhecer) o destino que mais lhe aprouver de entre os da World Run.

Como é? Vamos fugir do carro-meta no dia 3 de maio?

Ivete Carneiro

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