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João Colaço 18º na Spine Race: “Tem mesmo que se querer”

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“Tem mesmo que se querer estar ali, querer acabar. Dizer sempre: tem que ser, é isto que eu quero”. João Colaço há de ter repetido incontáveis vezes a máxima ao longo da Spine Race, que aconteceu na semana passada e era anunciada como “a corrida mais brutal” da Grã-Bretanha.

“Não a descreveria como uma corrida. É mais do que isso”. É – foram – 431 km, “condições extremas, com gelo neve, ventos ciclónicos, chuva, lama, uma progressão muito lenta e difícil”.

João Colaço quis mesmo estar ali, quis mesmo acabar. Conseguiu. Sofreu, perdeu-se, a navegação não é o “estilo” deste corredor amador da Marinha Grande, diretor numa empresa de rent-a-car, marido, pai, teimoso e apaixonado pelos trilhos. Tanto que é de madrugada que treina. E treina substancialmente. Cerca de 20 horas por semana.

Mas foi a Spine Race e não o treino que nos levou à fala com João. Dizíamos que ele nos dizia não seria bem uma corrida. É – foi – o quê, então? “Uma semana. Uma experiência de vida, uma questão de sobrevivência”. Será difícil explicar melhor o que vai na cabeça de quem se propõe andar uma semana a atravessar um inóspito desconhecido. “Houve momentos em que tive de socorrer-me de outros”. É mais do que uma corrida. É um viveiro de amizade.

João tinha já a fasquia bem elevada. Em setembro passado, chegara em 13º no Tor des Géants. É o trail dos trails, no Vale d’Aoste, nos Alpes italianos. 332 km mais uns pozinhos. Muitas horas, 50 mil metros de desnível acumulado, o frio alpino, uma só etapa. Tinha. Só podia ir mais além.
Sempre correu, está-lhe nos genes, pai militar e, por (de)formação profissional, atleta, irmão atleta por isso mesmo também. Há 10 anos, competiu pela primeira vez, 10 km na Corrida do Tejo. Desde então, foi “ir fazendo um bocado mais do que da última vez”. A estrada, largou-a há anos. Com uma exceção: a S. Silvestre de Lisboa é ponto anual assente.

Quilometragem? Passou a barreira da Maratona na Melides-Tróia, 43 km de areia. Foi subindo até ao Oh Meu Deus, 100km na Serra da Estrela. Quando esta prova passou a ter as 100 milhas (160km), também foi na Estrela que as cumpriu. E por aí adiante. Os 168km do Ultra Trail do Monte Branco, os 251km por etapas na Maratona das Areias, no Saara, os 332 do Tor des Géants. “Faço isto pelo desafio pessoal, é uma questão de evolução”.

A Spine Race era uma das hipóteses. 430Km, cinco pontos de assistência (contra um a cada 10km no Tor), uma mochila que chegou aos 10kg (contra 3kg no UTMB), trilhos sem marcação para lá das tabuletas do percurso pedestre nacional que a prova percorre. “Por vezes nem tem trilho, sequer”. Alistou-se. Treinou o que pôde, sem aprofundar a navegação, sem estagiar em altitude, sem testar a resistência à neve e ao frio. Tentou correr com peso às costas. Não fez nada de muito diferente do que costuma fazer para provas de 100km ou 100 milhas. E arrancou para uma fúria de seis dias com os pés encharcados.

João programou dormir uma ou duas horas por noite. A dada altura, no ponto mais alto da prova, adormeceu mais estendido num abrigo. E, quando atingiu o posto de controlo seguinte, foi brindado com a neutralização da prova por força do mau tempo. Foi mais de meio dia de um descanso relativo, pouco retemperador, mas que valeu a esta edição da Spine Race um recorde de finishers: 47 dos 97 atletas que arrancaram às 11h30 do sábado 10 de janeiro. Entre eles, João Colaço. Chegou passadas 134 horas, num 23º lugar que seria revisto para 18º, graças ao facto de alguns atletas não terem subido ao ponto mais alto. Em troca, estenderam-lhe uma medalha, uma t-shirt e “um emblema daqueles de coser”. Isso e duas bolhas – só –, uma tendinite no Aquiles, comum em quem estica a distância, uma inflamação nos gémeos e os pés inchados.

Desistir foi opção que nunca subiu à cabeça de João. Certa vez, perdido, ligou à organização. Acabou por reencontrar o caminho sem virem em seu auxílio. Tivessem vindo e a desclassificação seria provável. João conseguiu e foi o primeiro português a cumprir semelhante distância numa prova de etapa única. Esperam-no agora outros desafios. Mais curtos. Quatro dias no Peneda-Gerês, 85km no Estrela Grande Trail e o objetivo maior: os 160km da Ronda Del Cims, nos Pirinéus, em finais de Junho, vendida como “as 100 milhas mais duras do mundo”, 15 cumes entre os 2400 e os 3000 metros de altitude.

Ivete Carneiro

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