Com Luís Pereira à procura da beleza

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Faltam dois meses. Foi atrás do canto da água que Luís se embrenhou. Lá longe, mas não muito longe, um corta-fogo sem graça corta o caminho cerce, a pique, uma descida que não se deseja a ninguém. “Eu nunca faço disto descidas, seria loucura. Haverá quem faça”. Luís alonga o percurso, ignora a descida e constrói, entre um muro compacto de austrálias, um carrossel de sensações, um labirinto de esforço, as curvas de uma serra à medida das passadas. E ali, ao lado, corre a água, quase em estado puro, no silêncio que existe a 15 minutos do Porto. “Se tens um estradão ao teu lado e se vês uma floresta adjacente, é por lá que tens de ir. Tens que abrir um trilho e andar lá pelo meio. Trail é trilhos, trail não é estradões”.

Estamos na Serra de Santa Justa, em Valongo, umas boas centenas de metros abaixo da capela que mira dali ao mar, quando os dias deixam. Luís Pereira arrebanhou um grupo de amigos, os mesmos de sempre, os mesmos que também o arrebanham a ele, quando se trata de construir carrosséis. Flor e Madureira, Asdrúbal e Filipe estão a desenhar, à velocidade de sacholas e tesouras de poda, os próximos Trilhos do Paleozoico no leito de um curso de água que nos levaria, se o seguíssemos, até ao Rio Ferreira, que banha Couce, esse pedaço de paraíso perdido tão perto da civilização. E sim, ainda faltam dois meses para a prova. Porquê?

“Andámos mais de meio ano a preparar a primeira edição, eu e o Asdrúbal”, sorri Luís. “Temos de fazer a manutenção dos trilhos, que é para não chegar à altura da prova e andarmos atrapalhados”. E descobrir trilhos novos, para não enfastiar quem já competiu por ali. Sempre com a garantia de que não se toca em espécies protegidas, como pinheiros, ou carvalhos. Limpo o traçado, só restará marcá-lo antes da corrida e ver se alguma silva cresceu ou algum tronco caiu.

“Agora é mais rápido”. Porque a descoberta dos trilhos levou a um fenómeno de procura sem precedentes. A Serra de Valongo é, aos fins de semana, um autêntico viveiros de corredores. Tanto melhor para os organizadores: os atletas vão fazendo, pelo uso, a manutenção de parte dos caminhos.

“Um colega disse-me ainda esta semana que, no fim de semana passado, o “elevador” parecia uma auto-estrada”. O elevador. Quem já correu os trilhos de Luís sabe do que se fala. É precisamente um estradão – “Uma prova de trail tem que ter um bocado de tudo. Tem que ter trilhos técnicos, mas tem que ter alguns estradões, para o pessoal não se cansar da dureza e também rolar um bocadinho” – que não seria “nada de transcendente” se não aparecesse aos 45 km de corrida. “É um estradão técnico que vai desde a aldeia de Couce até às antenas de Santa Justa. Tem três “pisos”, o primeiro é soft, o outro sobe mais um bocadinho e o outro é uma parede autêntica”, com um desnível de cerca de 150 metros em 1200 metros de distância. “Com 45 km nas pernas, já vais cansado, só queres é terminar e tens que ir buscar forças onde não existem”. Luís já viu gente chegar lá acima e chorar. “De emoção”. Com insultos também. “Insultar e dizer asneiras… faz parte do trail!”.

Ouvem-se algumas, ali, na encosta de Santa Justa abrigada das austrálias, entre os sons metálicos do ferro a abater árvores. Porque limpar um terreno faz parte das boas brincadeiras de quem perde os fins de semana a preparar terreno para deleite alheio. “A gente gosta disto”, apesar de isto ainda não ser meio de ganhar a vida, desengane-se quem acha que é. Quanto ao resto, está prometido: 80% do percurso dos Trilhos do Paleozoico será igual ao do ano passado. Sobram novidades, “para melhor”. Mais belo. Diz ele.

Ivete Carneiro

Foto 25Produções

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