“O que é isto? Cultura correndo? Que bonito!”

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Domingo, nove da manhã, quatro graus. O Largo da Lapa enche-se de corredores. Sem prova, nem pressas, partem à descoberta da cidade do cerco do Porto. Ao fim de três horas, correram 10km e montes de história.

Henriqueta da Conceição e o Cartola. Assim, a correr, são nomes que não lembrarão muito. Pois foi a correr de uma banda para a outra que, num domingo de manhã de terrível frio, um composto grupo de corredores sem palha no ninho ficou a conhecer estas duas figuras da cidade do Porto.

Henriqueta será porventura dos primeiros nomes associados ao amor entre duas raparigas. Mulher da vida, terá vivido o seu ódio aos homens e o seu amor por Teresa na Rua do Cimo de Vila, na segunda metade do séc. XIX. Cartola, esse, seria o guarda dos beijos transferidos das moças para a xícara da fonte dos milagres nas Águas Férreas, que hoje embeleza o Parque da Cidade.

Naquele grupo que só não gelou porque o proposto era correr entre lições de história, poucos saberiam dos feitos declamados pelo “mestre” José Moutinho, que ofereceu a quem quis um free running – que aqui chamaremos de passeio gratuito – de perto de 10km, dedicado à cidade que sobreviveu ao cerco de Porto. Henriqueta e Cartola não têm que ver com essas guerras, mas calharam de estar nos trilhos urbanos percorridos.

O de domingo foi o segundo episódio da “saga do cerco do Porto”. O primeiro fez o caminho que trouxe os liberais de D. Pedro IV das praias de Leça da Palmeira, onde desembarcaram, para lançar a heroica resistência da cidade do Porto às tropas absolutistas. Desta feita, correu-se do coração da história – fisicamente o de D. Pedro, guardado na Igreja da Lapa – ao telégrafo instalado no topo de uma colina que poucos tinham já conquistado. Daí às Águas Férreas, Cedofeita fora (ali viveu Pinto da Costa, conhecem?), aos Clérigos, à explicação da portuense expressão “ser fino como o alho”, ao morro da Sé acima e abaixo, a S. Bento e a tudo o mais que fosse caso de contar, porque José Moutinho é um obsessivo leitor da história do Porto. Até para ouvir uma castelhana constatação deu: “O que é isto? Cultura correndo? Que bonito!”

O homem da Freita

José Moutinho é um bibliófilo inveterado. Depois, é profissional da distribuição. Por fim, é amante de corrida. Se for por trilhos, tanto melhor. E trilhos, diz ele, há em todo o lado. Certo dia, conseguiu transformar o espaço que cabe num raio de dois quilómetros à roda da Câmara da Maia numa pista de 21km de sobe e desce. “O trail é um fartlek gigante”.

É o homem por detrás do mítico ultra-trail da Serra da Freita, mas admite que os maiores desafios que mais prazer lhe dão são os free runnings. Demora meses a pensá-los e prepará-los. Já correu entre tascas, entre cinemas, entre travessas da Foz. Desta vez, arrastou corredores portuenses à descoberta da sua cidade. “Muita gente pensa que o cerco do Porto é um bairro…”

Ivete Carneiro

2 comentários

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  • Carla Mota

    6.1.2015

    Excelente resumo do que foi uma manhã de domingo muito diferente….
    Esperava ir fazer um running mas foi muito mais!!!!
    Foi muito bom ouvir e aprender “coisas” do nosso Porto, que tanto amamos, como disse José Moutinho e que desconhecemos.
    E se gostamos assim tanto nada melhor que conhecer a sua história!!
    Obrigada pela disponibilidade de José Moutinho!
    Todos ficamos mais ricos!
    Fico à espera do próximo…. Que seja em breve

  • Flor Madureira

    6.1.2015

    Parabéns pela reportagem,uma transcrição excelente do que foi uma manhã de história e corrida. Vi muita gente a correr e muitas de passo ligeiro que não perderam o passeio nem os relatos sobre o Cerco do Porto com muitas curiosidades sobre esta nossa linda Cidade “Porto”.
    Parabéns ao Moutinho mentor deste passeio.