Ela bate recordes pelas crianças do Bangladesh

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Maria Conceição. É esse o nome da primeira mulher a ter entrado no Guiness com sete ultramaratonas feitas em sete continentes em seis semanas. É esse o nome da pequena que foi criada por uma mãe adotiva entre outras seis crianças e que, um dia, percebeu que se não lhe tivessem estendido a mão, teria tido um futuro como o das crianças que via da janela do táxi que a levava do aeroporto até um hotel no Bangladesh. É esse o nome da hospedeira de bordo que largou a confortável Emirates Airlines para se dedicar àquelas crianças que então viu. É o nome da portuguesa de Vila Franca de Xira que se inspirou na segunda mãe, criou a Maria Cristina Foundation (MCF) no Dubai e já levou educação a mais de mil crianças de Dhaka. É o  nome da atleta que, nas últimas seis semanas, correu cinco meias maratonas em cinco dias em cinco estados americanos diferentes, cinco maratonas inteiras em cinco dias em cinco estados e sete maratonas em sete dias. Apenas e só para angariar fundos para resgatar gente da pobreza dos bairros de lata do Bangladesh. Foi por isso que Maria Conceição, 37 anos, começou a correr. E é por isso que corre cada vez mais…

Como foi parar onde está?

Comecei a trabalhar para a Emirates Airlines em 2003 e, numa viagem ao Bangladesh, testemunhei as sérias condições de pobreza nos bairros de lata de Dhaka. Comecei a tentar ajudar, com modestas angariações de fundos para aplicar de cada vez que lá voltava. Isto foi crescendo e crescendo até um ponto em que estávamos a dar educação a 600 crianças em Dhaka. Em 2010, saí da Emirates Airlines para me dedicar a tempo inteiro à MCF.

Porquê o Bangladesh e Dhaka?

Assumi o compromisso de promover a educação completa das crianças de uma comunidade em particular. A situação do bairro era a pior possível e não havia sequer uma esperança de educar as crianças. Uma educação efetiva leva 13 a 14 anos. Temos fornecido escolas para as mesmas crianças há já quase 10 anos, portanto, ainda temos algum caminho pela frente. Estamos em luta constante na procura de fundos e já é muito difícil honrar o compromisso com apenas esta comunidade, que faria se fossem mais… Proporcionar educação só será verdadeiramente benéfico e útil para resgatar famílias da pobreza se for feito de forma completa.

Como nasceu a Fundação Maria Cristina?

A minha viagem por esta causa arrancou em Dhaka, em 2005, quando era assistente de bordo. No caminho do aeroporto para o hotel, fui fustigada por uma dolorosa visão – pessoas mergulhadas na mais absoluta pobreza. Ver crianças a pedir nas ruas marcou-me profundamente, pensei que poderia ser eu se não tivesse sido ajudada. A minha mãe adoeceu quando eu tinha dois anos e teve de me entregar a uma amiga que podia tomar conta de mim. A minha mãe adotiva, Maria Cristina, cuidou de mim e deu-me um novo sopro de vida. Era uma imigrante africana pobre, que já tinha seis filhos e lutou muito para dar-me uma boa educação. O lema dela era: “Se consegues alimentar seis, consegues alimentar sete”. Tornou-se na minha inspiração. Pensar no que poderia ter acontecido se não tivesse tido ajuda é o que me motiva a continuar e nunca desistir de lutar pelo que posso fazer pelas crianças de quem tomamos conta. Os miúdos que conheci nos bairros de lata de Dhaka eram tão espertos e enérgicos e tinham tanto potencial… Então pensei que se eles tivessem oportunidade, poderiam chegar longe. A visão começou ali. O objetivo era proporcionar-lhes a melhor educação possível de modo a poderem competir internacionalmente por universidades e carreiras. No limite, capacitá-los-ia para sustentarem as famílias, resgatando-as do jugo da pobreza, agora e nas gerações futuras. A MCF apoia atualmente mais de 200 crianças com programas de educação básica e secundária e envia as crianças com potencial mais promissor para escolas em Dhaka. Também ajudamos com alimentação, transporte, bolsas, material, etc. E temos um programa para educação de adultos. Prefiro medir o volume do nosso sucesso no número de pessoas que apoiámos ao longo dos anos, que já ultrapassa os mil.

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Fale-nos agora da sua paixão pela corrida…

Não sei bem se gosto de correr… Para mim é uma forma de angariar fundos. Mas dá-me gozo fixar objetivos e atingi-los e correr é seguramente uma boa forma de consegui-lo. Contudo, descobri que pareço ter uma habilidade para a corrida de resistência e tenho curiosidade por descobrir até onde posso levar isso.

Quando começou, porquê, onde?

Comecei com uma ou duas maratonas para angariar fundos para a MCF e foi crescendo. Percebi que consigo superar-me cada vez mais. Tratei então de conseguir alguns recordes mundiais para ultramaratonas (o 776) e isso foi efetivamente uma boa publicidade para a fundação: possibilitou-me inscrever 200 crianças em boas escolas em Dhaka.

Explique-nos o que foi esse 776…

Foi fazer uma ultramaratona em cada um dos sete continentes em seis semanas. Bati dois recordes do Guiness (primeira mulher a fazê-lo e em seis semanas em vez de sete) e consegui bastante publicidade, sobretudo no Médio Oriente, mas também em publicações de corrida e desporto. Antes disso tinha feito trekking no Polo Norte e subido ao Evereste.

Por que decidiu pôr a corrida ao serviço da ajuda humanitária?

Eu sou capaz de me pôr à prova até limites que pouca gente consegue. Comecei a ver nisso cada vez mais oportunidades para publicitar a fundação, despertar consciências e angariar fundos. Tinha de fazer alguma coisa extrema para conseguir captar a atenção dos media e angariar fundos. E havia empresas e mecenas prontos a patrocinar os desafios. Correu bem. É muito difícil manter a solidariedade na ribalta, não podes limitar-te a contar sempre a mesma história. Tinha que estar constantemente a reinventar-me e à fundação, de maneira a sobreviver e poder continuar a fazer o que fazemos.

Até ao desafio das últimas semanas…

Fiz cinco meias maratonas em cinco dias em cinco estados dos USA, em setembro, como início de treino para o meu próximo grande desafio: sete maratonas em sete continentes em sete dias em fevereiro de 2015. O passo seguinte foi fazer cinco maratonas em cinco dias no início de outubro e depois sete maratonas em sete dias no final de outubro.

Como é que passa por esse esforço?

Foi muito difícil. A dada altura, já não sabia se conseguiria. Mas acabou por correr bem. Acho que uma progressão bem equilibrada e uma boa dieta prepararam bem o meu corpo, ainda que se diga que o corpo só faz metade da corrida. A outra metade é feita pela mente…

E consegue recuperar em poucas horas?

Não sei bem se recuperei entre corridas ou se consegui estar sempre em modo de corrida durante os sete dias, porque só quando terminei o sétimo dia é que me senti completamente exausta durante uma semana e foi aí que o meu corpo entrou verdadeiramente em modo de recuperação.

Durante estas provas, corre sempre, ou tem de caminha de vez em quando?

Corro a maior parte do tempo, mas há alturas em que tenho de caminhar, devido à dor do cansaço. É melhor planear caminhar parte do percurso, para reduzir o cansaço nas corridas longas, embora por vezes seja difícil desacelerar quando está tudo a correr bem.

Que apoios tem para os seus desafios?

Quando fiz o desafio 776, fui patrocinada por um centro de terapia desportiva do Dubai, que me ajudou na recuperação. E um amigo meu pagou praticamente todos os custos do desafio. Nos desafios mais recentes, estou basicamente por minha conta. Tenho um treinador virtual no Reino Unido que me dá aconselhamento permanente.

De que forma consegue angariar apoios para a fundação através deles?

Trata-se de alertar consciências. Quantas mais pessoas ouvirem a história da MCF, mais potenciais doadores teremos. Mas é sempre uma luta, faça o que faça nunca parece ser suficiente. Temos tido vários patrocinadores e doadores ao longo dos anos, mas estamos sempre desesperados. Parece que estamos sempre na iminência de ter de fechar ou reduzir os serviços por falta de fundos. É muito stressante.

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Ivete Carneiro

2 comentários

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  • José Arromba

    18.7.2015

    Pois….PARABÉNS é a palavra que surge espontaneamente ao conhecer a fantástica e maravilhosa acção que desenvolves. E ainda, MUITA FORÇA e MUITO OBRIGADO pela felicidade de “conhecer” pessoas tão excepcionais.

  • Olivia Ferreira

    26.2.2015

    PARABÉNS Maria da Conceição! Sinto orgulho no ‘trabalho’ que realizas em prole de crianças que tanto precisam de ajuda! OBRIGADA em nome de todas elas!