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Urban Trail de regresso ao Porto

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É já este sábado que o Urban Trail regressa ao berço: a montanha feita de granito, vielas e escadas do Centro Histórico do Porto, que viu nascer o projeto piloto destas corridas, há dois anos, recebe a partir das 21 horas perto de dez mil corredores e caminhantes iluminados, num desafio que vai dos 6 aos 12 km e passa por locais habitualmente condicionados, como os armazéns de pipas das Caves Taylor ou a muralha fernandina acessível pelas traseiras da Igreja de Santa Clara.

Encerradas as inscrições, estão reservados alguns lugares para venda de última hora, no secretariado da prova montado na Casa do Infante, que funcionará das 12 às 22 horas na sexta e das 10 às 21 horas no sábado. A partida é do Cais da Ribeira, de onde a onda de luz seguirá para a Ribeira de Gaia, para subir ao Jardim do Morro, ir apanhar a Ponte do Infante, descer e subidas escadas do morro da Sé e atravessar a zona histórica até áos jardins do Palácio de Cristal e regressar à Ribeira.

Um conceito vindo da montanha

2014 é o ano em que o conceito Urban Trail descobre mais montanhas urbanas. Depois de Lisboa e do Porto, acontecerá em Sintra e em Coimbra, com corridas noturnas por vielas e escadas e ruelas e história, numa altura em que já são às centenas os corredores que interiorizaram o conceito e incluiram-no nos seus treinos semanais.

Mas, afinal, como é que nasceu o “urban trail”?

Tudo começou com o último cigarro e o consequente primeiro quilo a mais. Jorge Azevedo, profissional na área do marketing, chegou aos 100 kg. Pegou na bicicleta, mas rápido percebeu que teria de lhe dar muito tempo para almejar resultados. Desatou a caminhar. E caminhou até, um dia, chegar a um pico, ao fim de muitas horas, e de ver o próximo e pensar, raios, não tenho tempo. Só se… fosse a correr.

Foi. Instalou-se o vício. Mas com um problema: para quem vive numa cidade como o Porto, a montanha não é ali ao lado. Até que olhou à volta e percebeu que, na verdade, vivia numa montanha urbana, pejada de escadas e rampas e desníveis e vistas deslumbrantes e sítios desconhecidos.

“Eu gostava daquilo, mas temia que fosse uma obsessão minha. A melhor forma de saber se o era foi testá-la com outros”. Nascia, ali, numa cabeça que avalia a vida à luz da experiência no marketing, o conceito de “urban trail” – trilhos urbanos. O teste foi um sucesso: uma iniciativa organizada no facebook juntaria 650 pessoas numa corrida livre pela cidade do Porto. “Tivemos de travar, porque era um free, não haveria cortes de trânsito”. Jorge percebeu que, afinal, “o mercado queria” um pouco da obsessão dele. E lançou-se na organização de uma prova oficial.

Marcou-a para Outubro de 2012, no Porto, e foi também vender a ideia a Lisboa, que pediu a iniciativa para o Dia da Mobilidade. Três mil pessoas, ali, sem mais nem menos, numa corrida que era novidade total na capital. Dias depois, o Porto veria seis mil juntarem-se na Ribeira, de frontal na cabeça ou lanterna na mão. A organização, inexperiente, teve prejuízo. Mas insistiu e em 2013, juntou oito mil pessoas em cada cidade, esgotando o evento, já patrocinado e financeiramente saudável.

O marketeer admite que há duas reações impagáveis por parte de quem alinha nos desafios: “Comecei a descobrir recantos da minha cidade que desconhecia” e “Já andei aqui a jogar à bola!”. É a redescoberta das aldeias que vivem dentro da malha urbana. E a oportunidade de correr por sítios impensáveis, como entre as pipas das caves de vinho do Porto, ou sobre muralhas.

Recorde aqui a reportagem feita pelo JN no Urban do Trail do Porto em 2013.

Jorge Azevedo registou a marca em Portugal e descobriu que a cidade francesa de Lyon organizava uma prova parecida havia cinco anos, mas não registara o conceito. Deu o salto. O Urban Trail é agora europeu e é de um português. E a prova de Lyon é em parceria. No ano passado, a vencedora do circuito português, Inês Marques, foi a Lyon. E venceu lá também.

São corridas de cerca de 12 km (à exceção da de Sintra, encurtada devido ao maior desnível), associadas a caminhadas ou corridas curtas de cerca de 6 km. Jorge Azevedo admite que gostaria de poder oferecer distâncias mais longas, numa altura em que o conceito se tornou moda e são muitos os grupos que organizam semanalmente treinos em trilhos urbanos. Mas obrigaria a um sobre-esforço organizativo. “Uma prova urbana de 20 km tem de parar a cidade”. Preferiu, para já, estender a Coimbra e Sintra. E, a prazo, preparar outras cidades que cumpram os requisitos: ter “casco histórico relevante e desnível acentuado”.

O sonho, em marcha, é criar um circuito europeu. Já há capitais interessadas e contactos adiantados. “O Urban Trail tem um potencial turístico fantástico. Tem até mais do que uma maratona, porque esta implica estar mais dias no sítio para se visitar. No Urban, conhece-se a cidade durante a prova”.

Última curiosidade: os Urban Trails só são noturnos porque aconteceram assim, no início, para serem “disruptivos”. E porque aborrece menos o trânsito do que de dia, convenhamos. Mais informações na página do MEO Urban Trail.

Ivete Carneiro

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