Bruno Silva no pódio do Grand Raid des Pyrénées

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Bruno Silva tinha o desafio do Grand Raid des Pyrénées em mente havia algum tempo, cansado de ano e meio que, diz ele, foi mau. “Para muitos, eu estava morto a nível competitivo”. Pouco mais de um ano depois de começar a competir, tinha conseguido um terceiro lugar no Ultra Trail de São Mamede e desistira no Gran Trail Aneto-Posets, depois de ter feito mais de metade da prova em segundo. Afinal, não estava morto. Foi terceiro nos Pirinéus, há 15 dias.

Culpado: treinos desequilibrados e o regresso a eles demasiado cedo enquanto recuperava de várias lesões. Na dobragem de 2014, Bruno fartou-se de se sentir fraco. Estabeleceu objetivos. E treinou com plano muito bem definido, até que partiu um pé e teve de parar quatro meses. Só voltou a calçar as sapatilhas em Maio. “Correr cinco minutos seguidos era complicado”. Um mês depois, sentia-se quase perfeito. E assumiu que iria ao Grand Trail des Pyrénées. “A três semanas da prova, fui obrigado a abortar quase todos os treinos, porque o pé começou a ceder. O meu ortopedista disse que eu tinha que ser operado urgentemente e teria que parar dois meses. E eu disse que seria operado, mas só depois da prova”, conta Bruno, 31 anos, armazenista na grande distribuição alimentar. Teimoso, foi. E levou na bagagem problemas gastrointestinais e três semanas sem fazer quase nada.

Foi a 22 de agosto, a uma semana da prova gigante do trial mundial, que levou cem portugueses aos Alpes. Bruno Silva, “Saval Angel” nos trilhos, preferiu os pirinéus. “O Mont Blanc não me cativa, é pouco técnico, tem pouca dureza e é muito corrível. Eu gosto de terrenos quanto Mais agrestes melhores, com muita rocha, muita dificuldade técnica e grande desnível”, conta-nos o atelta, que foi organizador do Ultra Trail do Marão.

Bruno foi mais cedo para os Pirinéus, para se aclimatar. “Durante dois dias e duas noites tentei andar em quotas entre os 2.000 e os 2.800 metros de altitude. Foram duas noites de temperaturas baixas e ventos muito fortes”. No dia 22, arrancou com mais 800 atletas para uma prova que “contava que fosse bastante mais dura”, mas que fê-lo sofrer quanto baste. Sonhava com o tempo dos recordistas (24h37 horas nestes 164 km), mas tinha consciência da dificuldade.

“A minha prova, verdadeiramente, começou a partir do abastecimento dos 102 km”. Porque até aí voltaram as dores intestinais, esgotou a água, teve que beber das ribeiras, começou a cabeça a latejar e o nevoeiro a descer sobre a montanha, vieram vómitos, tonturas, deitou-se até na erva, a olhar a chuva cair-lhe nos olhos. E parou hora e meia, aos 102 km. Depois, foi a voar.

Às 26h40 de prova, o atleta de Famalicão cortou a meta num terceiro lugar que recuperara à custa da força de vontade, depois de se ter perdido sem luz. Fez mais 3 km e foi o português mais rápido de sempre mo Grand Raid des Pyrénées. “Foi um dos melhores tempos da prova. O melhor tempo português era de Carlos Sá, quando ganhou em 2011. Eu baixei o tempo”, contou ao JN Running, dias depois. “Agora é que o jogo vai começar!”

Ivete Carneiro

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