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Afinal podemos mesmo ter nascido para correr

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E se a corrida estivesse na origem daquilo que o nosso corpo hoje é porque só assim conseguimos correr?

Não, não vamos aqui dissertar sobre a já mítica obra “Nascidos para correr”, em que Christopher McDougall descreve a tribo Taramuhara e o facto de o homem ser um natural corredor de distância. Mas vamos atentar numa tese que o autor aborda: somos o que somos porque corremos.

A polémica tese foi desenvolvida por dois investigadores norte-americanos e veio contradizer o pensamento científico vigente segundo o qual o homo sapiens foi feito para caminhar, como o prova a fraca performance nos sprints quando comparada com quadrúpedes.

Errado, dizem Dennis Bramble, biólogo da Universidade do Utah, e Daniel Lieberman, antropólogo da Universidade de Harvard. Nascemos para correr, garantiram, ao cabo de um estudo de 2004 que teve direito a tema de capa da prestigiada revista científica britânica “Nature”. “Correr influenciou substancialmente a evolução humana. Correr fez de nós humanos – pelo menos no sentido anatómico. A emergência dos humanos está ligada à evolução da corrida”, explicou Dennis Bramble à “Nature”.

A tese é de que o Homo evoluiu do Australopiteco porque a seleção natural favoreceu a sobrevivência daqueles que conseguiam correr e, com o tempo, favoreceu a perpetuação das características humanas que tornaram possível correr longas distâncias.

Os cientistas esmiuçaram o corpo humano de cima a baixo e encontraram diversos traços que se desenvolveram simultaneamente e que só fazem sentido porque era preciso correr. Caminhar não exige grande parte desses traços. E se o homem tivesse sido feito para caminhar, dizem, talvez não tivesse passado de Australopiteco.

Senão veja-se: há 4,5 milhões de anos, os Australopitecos evoluíram para bípedes, mantendo a habilidade de andar nas árvores e só três milhões de anos depois de aprender a caminhar é que evoluíram para Homo habilis, Homo erectus e Homo sapiens. Ou seja, a forma do nosso corpo não decorre do ato de caminhar, porque os antepassados já se fartavam de caminhar “sem nunca serem parecidos com o que são os seres humanos”: tinham pernas curtas, braços longos, ombros altos e permanentemente encolhidos, tornozelos não aparentes e mais músculos a ligar os ombros ao pescoço e à cabeça.

E correr para quê, afinal? Não há certezas, mas há hipóteses. Para contrariar a tese vigente de que os primeiros homens só faziam pequenos sprints para caçar ou fugir (ou seja para sobreviver), Bramble e Lieberman pescam o estudo do biólogo David Carrier, da Universidade do Utah, que defende que a corrida de resistência se desenvolveu para perseguir presas antes de alguém inventar os arcos, as flechas e as lanças.

E somam outra possibilidade, dado ser quase certo que qualquer animal que se cace é mais rápido do que um ser humano: correr permitiria aos primeiros homens chegar antes das hienas às carcaças de animais recentemente mortos por outros predadores, mal apercebessem um bando de abutres em rondas no céu.

E que traços são esses, afinal, que fazem de nós máquinas de corrida?

– um crânio que deixa escapar suor pelo escalpe e pela face, arrefecendo o sangue nas veias que passam junto às carótidas e, portanto, alimentando o cérebro de sangue mais fresco;

– uma face mais lisa e dentes mais pequenos do que os australopitecos, recuando o da massa e permitindo um balanço equilibrado da cabeça com os altos e baixos da corrida;

– um ligamento que desce da base do crânio até às vértebras torácicas, para absorver os impactos e ajudar ao contrabalanço produzido pelos ombros e braços;

– ombros “desligados” do pescoço e da cabeça, permitindo a rotação do corpo independentemente da cabeça;

– a altura do corpo e um tronco estreito conferem maior superfície de epiderme, possibilitando maior arrefecimento e maior liberdade de movimento à parte de baixo do corpo;

– antebraços mais curtos para um contrabalanço mais equilibrado com a parte de baixo do corpo e, também, menos músculo para facilitar os movimentos do braço durante a corrida;

– a coluna e as vértebras humanas têm mais diâmetro em relação à massa corporal do que tinham as dos australopitecos, permitindo às costas aguentar mais carga porque melhora a absorção do impacto;

– a ligação entre a pélvis e a coluna é maior e mais forte face ao tamanho do corpo, oferecendo mais estabilidade e absorção de impactos;

– as nádegas humanas, sim, são enormes quando comparadas com as dos antepassados, sendo um músculo fundamental na estabilização do corpo enquanto corremos, impedindo o tronco de se dobrar demasiado a cada impacto;

– pernas longas com ligamento e tendões como o de Aquiles, que funciona como uma mola que acumula e liberta energia mecânico durante a corrida, além de ocupar o espaço em vez de músculos, tornando a perna mais leve e exigindo menos energia para se mover;

– maior superfície na anca, joelhos e tornozelo, para melhor absorção do impacto;

– a forma dos ossos do pé torna-o mais rígido para um melhor impulso na corrida e o uso de ligamentos como molas;

– um calcanhar mais largo, dedos mais curtos e um dedo grande junto aos outros para maior impulso na corrida.

“Hoje, a corrida de resistência é antes de mais uma forma de exercício e de recreação, mas as suas raízes podem ser tão antigas quanto as origens do género humano, e as suas exigências ser um fator de contribuição major para a forma do corpo humano”, acreditam Lieberman e Bramble.

“A habilidade humana para correr longas distâncias, como uma maratona, nem é um simples subproduto da habilidade para de caminhar em duas pernas, nem um comportamento biologicamente aberrante. Pelo contrário, correr tem profundas raízes evolutivas. Embora os humanos já não precisem de correr, a capacidade e produtividade em correr maratonas é a manifestação moderna de um traço humano único que contribui paa fazer dos humanos aquilo que eles são”, resume Lieberman, num artigo publicado em 2007.

Ivete Carneiro

1 comentário

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  • Joao Couto

    10.9.2014

    bom artigo!