Hugo Pinto e a Muralha de Adriano

O sonho ficou cumprido: Hugo Pinto, cientista português de 32 anos, atravessou Inglaterra de costa a costa de uma só vez, a correr, junto à “fronteira” que desde o ano 122 separa a Inglaterra da Escócia. Foi no dia 12 de julho. Seriam 135 km. Encurtou-os para 125 km, porque o caminho estava mal sinalizado algures perto do fim. Mas não falhou. Porque chegou ao lado de lá. E cresceu.

É a segunda vez que Hugo Pinto, 32 anos, investigador na Universidade de Aalto, na Finlândia, atravessa Inglaterra em desafios solitários de corrida. O físico português começou a correr há três anos para fugir à monotonia e, desde então, tem feito subir os patamares dos desafios.  Depois de no ano passado percorrer sozinho o Alfred Wainwright Path, 305 km em cinco dias, Hugo voltou a partir sozinho à aventura, desta vez mais a norte no mapa inglês. Cortou o país de costa a costa junto à Hadrian’s Wall, uma muralha que data de 122 d.C que tem a chancela da Unesco, aproveitando o trilho nacional que corre ao longo da muralha.

Antes da partida, Hugo partilhou com o JN o que o movia: ter tempo para si próprio, para refletir.

“Eram duas da manhã em ponto quando parti de Wallend, 10 Km a este de Newcastle”, relata o corredor, que contou com a ajuda de uma “super lua” a iluminar-lhe as primeiras horas do caminho. Só aos 25 km encontrou marcas da muralha e não cruzou vivalma antes das sete da manhã, “já com uma maratona feita”. Era um grupo de ciclistas que traçava o mesmo percurso. As quintas e a ruralidade tinham tomado o lugar da cidade e o sol fazia das suas, num dia “surpreendentemente quente” para Inglaterra.

“A temperatura aumentava à medida que o Sol subia no horizonte e o trilho em campo aberto fazia prever dificuldades extra devido ao calor”. Correr a solo é contar com isto: “O facto de não haver postos de abastecimento, nem uma organização para tirar duvidas ou dar suporte provoca uma enorme sobrecarga emocional”. E obriga a gerir. E a ousar. A dada altura, Hugo teve mesmo de “bater à porta de um Bed&Breakfast no meio do nada para pedir pelas almas para encher as garrafas com água e se possível fazer uma sanduíche”. Mais adiante, já com 60 km nas pernas, interpelar uma jovem sentada na mala aberta de um carro a saborear um snack com vista para as ruínas da muralha. Americana de Boston, KC Leung lá cedeu metade da água que trazia para a viagem dela.

“Já perto do km 67, mais ou menos a meio do percurso, eis que surge a muralha pela qual eu tanto esperava. A beleza das paisagens, do trilho, o encontro entre na Natureza e a história fizeram esquecer o cansaço de mais de 8 horas de corrida. Aos poucos o trilho ia sendo ocupado por mais caminhantes, um “bom dia”, uma curta conversa ou um simples sorriso dava o alento extra para prosseguir. Afinal, a partilha faz também parte da essência destes projectos. Temos sempre uma história para partilhar, uma pergunta para fazer. E a resposta comum: ‘you are insane'”.

A “muralha imponente” foi a companhia de Hugo por mais uns 10 km, até que voltou a dissimilar-se e a trocar as voltas ao projeto. Um sinal escondido na vegetação fê-lo continuar em frente, para um destino errado. E obrigou-o a lidar com o desgaste psicológico resultante da soma do cansaço com o calor e a frustração pela falta de orientação ao cabo de 100 km de corrida solitária. “Depois de mais de 17 horas de corrida e 125 km percorridos, decidi dar por terminada a minha viagem na cidade Carlisle, o último grande reduto Romano na costa Oeste da Muralha de Adriano”. Hugo ficou a 23 km de Bowness-on-Solway, o fim da linha no mapa do sonho.

“A decisão de parar o cronómetro não é fácil”. Admite. “Os objectivos do projecto estavam cumpridos (correr ao longo da Hadrian wall, partilhar experiências, explorar os limites da resistência física e psicológica), mas, ao mesmo tempo, faltava chegar à ‘meta’. E é precisamente aqui que estes projectos a solo se distinguem de uma ultra-maratona regular. Aqui o tempo de corrida e os quilómetros percorridos são uma mera referência. O que realmente importa é o acumular das experiências vividas, a descoberta, a reflexão. Ao chegar a Carlisle essa meta estava superada. Correr até Bowness-on-Solway certamente preencheria alguns espaços vazios do meu ego, mas não é essa a razão destes projetos. Regressado ao conforto do meu apartamento, tenho um sentimento de missão cumprida e orgulho-me de ter tido a coragem de adaptar-me ao momento”.

Ivete Carneiro

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