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Altitude simulada pode afetar oxigenação do cérebro

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Um estudo da Universidade do Porto e do Hospital de Santo António avaliou eventuais alterações cognitivas resultantes da utilização de tendas com ar pobre em oxigénio para simular altas altitudes, a que atletas como o ultramaratonista Carlos Sá recorrem para se prepaparem antes de grandes desafios. E encontrou preocupações.

Vista de longe (e de fora), é uma tenda como qualquer outra, sem o oleado. Mas não é. Está, digamos, ligada às máquinas. Mais concretamente a um aparelho de hipóxia, que produz ar pobre em oxigénio. Dentro da tenda respira-se o ar que se respiraria na Serra da Estrela, ou a uma altitude daí para cima. Custa vários milhares de euros e é usada por atletas de alto rendimento para simular a estadia em alta montanha, durante o sono. Um deles é o ultramaratonista Carlos Sá.

Sabe-se que o organismo reage à redução dos níveis de oxigénio aumentando a quantidade de glóbulos vermelhos, o que melhora muito a capacidade de transporte de oxigénio do sangue. Este efeito oferece maior resistência ao atleta e prepara-o para estar em alta montanha como prepararia um estágio de vários dias em altitude. E também lhe proporciona um melhor desempenho em provas de resistência em modalidades como a natação, o ciclismo ou a corrida.

“Trata-se do equivalente legal de dois expedientes ilegais”, vulgo doping: “o uso de eritropoietina e as transfusões de sangue”, esclarece o coordenador da investigação, Pedro Amorim. Ou seja, “democratiza-se a altitude”, pondo nas mesmas circunstâncias os atletas que vivem ao nível do mar e aqueles que vêm de países montanhosos, como a Etiópia e o Quénia.

Mas não se conhece a repercussão dessa redução do oxigénio no cérebro. “Sabemos que estes atletas têm uma frequência cardíaca de base muito baixa – o coração deles bate muito devagarinho porque tem uma grande capacidade muscular – e queremos saber se isso pode de certa maneira ter alguma influência sobre a chegada de sangue ao cérebro quando esse sangue leva menos oxigénio por estarem dentro da tenda”, explica Pedro Amorim.

Perceber se ocorrem reduções da oxigenação cerebral e, no caso afirmativo, se resultam em eventuais alterações cognitivas é o que propõe o estudo das “Repercussões cerebrais do treino em altitude simulada”, a cargo do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar e da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e do Centro Hospitalar do Porto.

Ora, as noites monitorizadas em que participaram voluntários atletas e não-atletas revelaram alguns casos de redução preocupante da oxigenação do cérebro, ou seja, uma redução “abaixo dos valores que, na clínica, obrigam o médico a uma intervenção terapêutica para subir a oxigenação”, adianta o médico, chefe de serviço de Anestesiologia do Santo António, docente no ICBAS.

O potencial efeito prático dessa redução? “Alterações cognitivas como a diminuição da memória a curto prazo, défice de atenção” ou execução de tarefas, exemplifica a estudante de Medicina Francisca Beires.

 

 

Os voluntários começaram por adormecer com a concentração de oxigénio existente ao nível do mar. Passam depois para o ar respirado aos 2000 metros, equivalente ao da Serra da Estrela, e gradualmente escalam até aos 3200 metros, altitude simulada a que Carlos Sá usa o dispositivo. Mais do que isso, afetaria o efeito reparador do sono.

A investigação passa por monitorizar o sono dos voluntários, com mecanismos usados na “monitorização de doentes cujo cérebro está em risco de falta de oxigénio, como numa cirurgia das carótidas, por exemplo”, explica Pedro Amorim, também ele ultramaratonista.

Se o oxigénio no cérebro descer 20% abaixo do valor basal de cada indivíduo “é porque alguma situação grave aconteceu”. Foi o que se passou com cinco dos 12 voluntários, quatro dos quais atletas. “Só temos resultados muito preliminares, mas vimos que nalguns excedemos de facto esses 20%”, além de que um dos participantes “evidenciou alterações cognitivas”.

“Podemos dizer desde já que há motivo para alguma preocupação e para investigação mais aprofundada”. O facto de a descida ser mais pronunciada nos atletas pode prender-se com o facto de terem uma frequência cardíaca mais baixa e, certamente devido a isso, também um débito cardíaco inferior. Mas importa perceber se a descida de oxigenação foi potenciada pela subida repentina ao ar dos 3200 metros numa só noite e se o uso gradual da hipóxia pode alterar estes resultados.

Carlos Sá explica compra do equipamento

Carlos Sá comprou a tenda hipóxica para se preparar para bater o recorde de subida ao Aconcágua, nos Andes, Argentina. “Estamos a falar de uma altitude de praticamente 7000 metros, onde temos pouco mais do que 30% do oxigénio, o que me obrigaria a uma estadia em altitude de cerca de 30 dias para me poder aclimatar e estar nas melhores condições. Com este equipamento acabei por conseguir fazer esse mesmo desafio em apenas 15 dias”, conta o atleta, enquanto se preparava para passar uma noite a ser monitorizado no âmbito de um estudo da Universidade do Porto e do Hospital de Santo António que avaliou eventuais alterações cognitivas resultantes da utilização destas tendas com ar pobre em oxigénio para simular altas altitudes.

Passa noites alternadas na tenda e na cama, até pela saúde familiar – “A minha esposa não dorme na tenda…” , frequência que aumenta quando prepara algum aventura. “A máxima concentração de glóbulos vermelhos ocorre ao fim de 24 dias, portanto o ideal será utilizar (a tenda) pelo menos um mês antes destes grandes desafios”.

Sente resultados mensuráveis? “Não consigo dizer”, admite Carlos Sá, que prefere atribuir o sucesso a um conjunto de circunstâncias, que vai da qualidade do sono à da alimentação, passando pela focagem no desafio, pelo treino e pelo estado de alma no dia da aventura. Carlos Sá, vencedor da Badwater 2013, no Vale da Morte, EUA, foi recentemente o quarto classificado e primeiro europeu na Maratona das Areias, no Saara.

O próximo desafio é o sexto pico mundial, o Cho Oyo, no Tibete. “É uma montanha onde os alpinistas conseguem chegar ao cume ao fim de 40 dias. Se eu em 20 ou 25 o conseguir fazer, consigo poupar aqui 20 dias de estadia em altitude e chego lá muito mais forte, porque a permanência acima dos 5000 metros degrada o nosso corpo a cada dia que passa”. E a verdade é que se consegue notar, garante o treinador do atleta e da Armada Portuguesa do Trail, Paulo Pires: “Quando fomos ao Aconcágua, o Sá já tinha dormido (na tenda) umas semanas antes e estava muito mais aclimatado, a saturação de oxigénio dele era sempre superior à minha entre dez a 12 pontos”.

O equipamento de hipóxia é usado por vários atletas portugueses, entre eles Vanessa Fernandes, por exemplo, mas existe quase só em federações de modalidades de resistência e performance (atletismo, triatlo, canoagem, natação, ciclismo), em que é utilizado para treino e não para dormir. “Evita que tenham de deslocar-se para os Alpes, ou para os Pirinéus, ou para as montanhas dos EUA, como fazia Rosa Mota, que deve ter sido das primeiras portuguesas a utilizar o treino em altitude”, lembra Pedro Amorim, coordenador do estudo sobre as repercussões do uso destas tendas.

Ivete Carneiro

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