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Azores Trail Run: “Ter uma mão a tocar no mar e outra na montanha é único…”

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Um grupo de aficionados resolveu organizar uma corrida de montanha livre pelos trilhos do Faial. A ideia cresceu, foi agarrada pelo Parque Natural daquela ilha açoriana e transformou-se no primeiro Azores Trail Run.

A prova aconteceu no dia 24 de Maio, contou duas distâncias e cabeças do cartaz internacional da modalidade e viciou todos os que, como nós, nela se meteram. “Ter uma mão a tocar no mar e outra na montanha é único…”, resumiria, à chegada, o vencedor, Armando Teixeira. Confirma-se.

Sabiam que as hortênsias que enchem os postais dos Açores são uma espécie invasora, introduzida como planta decorativa há 250 anos, com um terrível potencial para matar espécies naturais e que têm de ser arrancadas para evitar dramas irreparáveis? Ou que o Faial se chama assim devido a uma espécie que cobre boa parte da ilha e a que o povo chama de “faia da terra”, mas que antes teve nome de Ilha de S. Luís e, antes ainda, Ilha da Ventura? Que a flora ali conta 900 espécies, 200 naturais e, dessas, 73 endémicas?

A resposta mais adequada será: e que tem isso a ver com corrida por trilhos de montanha, vulgo trail? Tudo. O Azores Trail Run que decorreu no dia 24 de Maio foi a prova disso. Passou por essas espécies. Pelas hortênsias sem flores, pelas faias verdes. Organizado pelo Clube Independente de Atletismo da Ilha Azul, contou com o apoio incondicional do Parque Natural do Faial, associação que nem sempre acontece em provas em áreas protegidas.

“Não faz sentido uma estrutura que trabalha na conservação e divulgação da natureza ter os seus trilhos para as pessoas verem a natureza in loco e não promover atividades destas. Se temos os trilhos disponíveis, esta é mais uma forma de pedestrianismo, embora mais veloz”. João Melo é diretor do parque e foi dos mais ativos na organização da prova. Acompanhou os atletas nos dias que se passaram por ali, ensinou-lhes a laurissilva açoriana, pô-los a plantar árvores numa antiga lixeira para “compensar o carbono gasto na organização da prova” e aplaudiu-os na linha da chegada, majestosamente montada na paisagem única oferecida pelo Vulcão dos Capelinhos, um pedaço de terra quase lunar que fez crescer Portugal, em 1957, acrescentando-lhe 2,4 quilómetros quadrados. Sabiam que esteve para lá quase um ano em abalos, “a água a explodir, a ferver pelo mar fora e abrangia numa eira e começava a sair areia do meio”? Contou-nos Maria Olívia, memória ainda tão viva, porque o trail dos Açores foi isto também, foi a gente que vive neles e que nos recebeu.

O investimento do Governo Regional permitiu recuperar trilhos que estavam esquecidos, alguns com centenas de anos, e custear parte das despesas dos atletas, cuja inscrição teve um preço pouco mais do que simbólico. “O investimento não pode ser visto como dinheiro perdido”, diz João Melo. Porque, além da conservação e estudo dos trilhos, “que vão ficar para toda a gente”, juntou no meio do Atlântico um naipe de famosos com redes sociais imensas.

Anna Frost, neozelandesa de 32 anos e campeã mundial de trail feminino, fez mais do que muitas campanhas publicitárias: publicou dezenas de fotos com legendas inspiradoras no Facebook, contou a história da ilha, falou das baleias, subiu ao Pico, descobriu recantos. “O trail, por vezes, não nos leva a nenhures senão a um lugar que nos faça parar e apreciar o nosso mundo”. E está dito.

No sábado 24 de Maio, levou-nos à margem da caldeira que marca o horizonte do Faial, 400 metros de abismo de um lado, outros tantos do outro, o mar lá ao fundo e o Pico de nuvens ao pescoço e espraiado ao sol. Fomos mais de 200. Metade começou lá em baixo, subiu até encontrar a outra metade, para todos descerem pela linha de dez vulcões que foram construindo o Faial. Inspiração, disse Anna Frost, óbvia vencedora feminina. O mais belo lugar por onde correu Terry Sentinela, ultramaratonista que fez com Carlos Sá a Badwater, a prova mais difícil do mundo, no Vale da Morte, nos EUA. O mais inacreditável dos trails para todos os que aceitaram o desafio, inigualável na beleza.

“Hoje filmei duas horas”, disse-nos Carlos Sá, à chegada de uma prova que fez em modo de treino, a “desfrutar”. “É fantástico, não sei como se demorou tanto tempo a ter um evento destes aqui”. Prevê futuro. A organização não teve falhas, a população associou-se, voluntariou-se, bateu palmas, assistiu e até descobriu caminhos desconhecidos. A melhor promoção de uma região, acredita o campeão português. O Faial ganhou, mas nós que lhe corremos pela espinha dorsal ganhámos muito mais…

Ivete Carneiro

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